27 maio 2015

O QUE ESPERAR DE EVA?

Usando os vários afluentes da autoestrada, chego, sem esforço, de minha casa a Óbidos em vinte minutos. Óbidos é uma vila com pouco mais de 2.000 habitantes e tem três livrarias. Mantendo a lógica da proporção livraria por habitante, Lisboa deveria contar com 720 livrarias e Viseu com 150! Esta espantosa situação da vila fortificada deve-se ao facto de uma livraria de Lisboa, a Ler Devagar, se ter arrojado – com o apoio municipal, claro – a instituir Óbidos como uma espécie de capital da cultura livreira. Deus os proteja a todos, apetece dizer, e os mantenha à distância do sucedâneo do Ministério da Cultura, entretido a ver se pode ou não vender Mirós à peça ou distraído a transformar o Museu dos Coches num deserto com carruagens mas sem outro orçamento senão o proporcionado pelos camelos do costume.
Voltando às livrarias de Óbidos: uma delas, logo à entrada da vila, está instalada numa antiga adega e oferece uma combinação de livros novos e usados; pode-se também trincar por ali qualquer coisa, como sandes de presunto ou bruschettas e o wifi é grátis. A meio da rua principal da vila está a segunda, esta instalada numa velha mercearia, caixotes de madeira de transporte de víveres servem de estantes e esta livraria que vende livros usados, tem, aliás, o ar sombrio e poeirento de alfarrábio de uma qualquer Pérola de Óbidos: Mercearia Fina. Finalmente, a terceira loja, está lá ao fundo da rua, ao cimo das escadaria, instalada numa igreja, e as estantes sobem quase até aos céus, como o nosso espanto. Este derradeiro templo da leitura vende, praticamente em exclusivo, livros novos e ali pode encontrar o que se encontra numa qualquer FNAC ou Bertrand de Lisboa, talvez até com maior riqueza na oferta.
Pois no outro dia comprei numa delas uma edição em segunda-mão dos Contos de Eça de Queiroz, uma obra que me apeteceu rever após ter lido o Diário Íntimo de Carlos da Maia, de A. Campos Matos (edições Colibri, 2014), uma interessante efabulação sobre o que poderia suceder se Carlos da Maia – um dos personagens centrais do Os Maias – durasse até aos anos 30 do século XX e se tivesse dado ao esforço de escrever um diário desde a última vez que o vimos com João da Ega, correndo à luz da lua para apanhar um eléctrico.
O livro que trouxe comigo pertencera a uma senhora e, na sua assinatura, os t eram como as cruzes em que o ramo deitado coroa o ramo vertical sem se cruzar com este; à secante prefere-se a tangente. O volume inicia-se pelo conto Singularidades de Uma Rapariga Loura e foi com grande prazer que deambulei pelos pormenores da história e pelo génio de Eça, sempre tão irónico e cáustico no desenho dos personagens que uma pessoa se mantém, em permanência, a sorrir para dentro de deleite.
A páginas tantas, estava entretido no terceiro conto, encontrei uma flor entalada entre duas folhas, o que não é raro suceder em livros. Pobre florzinha, tinha o castanho da secura estival e o emurchecimento merencório das feminilidades esquecidas. Continuei a leitura e, eis que, não muito depois, num conto que referia aves, encontrei uma pequena pena, macia, de delicadas tonalidades, com aqueles detalhes de beleza que só se nos revelam quando os acontecimentos se isolam perante os nossos olhos distraídos. Aí, como que fui iluminado por um lampejo, uma queda na simetria, e regressei à página onde encontrara a flor: na página em questão Eça falava de flores, e eu estava perante um padrão de associação temática entre o autor e o seu leitor. Revigorado, como que iluminado por dentro, abdicando da serenidade em esperar o que um virar de páginas, submetido à estrita lógica da progressão da leitura, me poderia revelar, pus-me, como o leitor impaciente de um qualquer policial, a folhear o livro em busca de novas surpresas que confirmassem e engrossassem os indícios anteriores.
E eis que no conto Adão e Eva no Paraíso, nas páginas que o autor dedica à descrição anatómica pormenorizada da fase impúdica e desnuda dos nossos pais primevos, dou de caras com um encaracolado e destingido pêlo púbico. Mas após o prazer da nova revelação, da confirmação da minha teoria de que a leitora ilustrava o autor, ficou-me, restou-me, uma dúvida, para sempre por esclarecer: será que aquele solitário e descolorido caracol se anemizara, entre páginas, sob a inclemência do tempo que passa e tudo desvanece ou, pelo contrário, ficava a dever a sua morfologia pálida às singularidades de uma rapariga loura?  



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