27 dezembro 2011

SAUDOSAMENTE


Como todas as mulheres cabo-verdianas, a Ministra Adjunta e da Saúde é uma mulher bonita, particularmente quando lhe é permitido relaxar da pose fechada dos momentos oficiais e nos brinda com um sorriso expressivo e um olhar inteligente e incisivo.
A senhora chama-se Cristina Fontes e aquele ‘Adjunta’ que antecede o  cargo de ‘Ministra da Saúde’ quer dizer que é também adjunta do primeiro ministro do país. Mas, afinal, que é isso para quem já foi Ministra da Reforma do Estado e da Defesa ou seja, para quem já mandou em todos os homens armados do arquipélago?
No dia 17 de Dezembro, enquanto por aqui se batia o dente, a cidade da Praia amanheceu azul e quente e, ainda não batiam as dez da manhã, já eu suava em bica, estrangulado pela gravata de cerimónia que o encerramento do Curso, de que era um dos responsáveis, aconselhava e a presença de duas ministras e meia (duas da Saúde, mais o tal acrescento de ‘Adjunta’) tornava obrigatório.
Durante a tarde soubemos da morte de Cesária Évora e pensei até que o jantar para que a Ministra, gentilmente, nos tinha convidado poderia ser cancelado perante tal desgosto nacional e a perspectiva de três dias de luto.
Quando a Ministra chegou ao hotel onde decorreria o jantar, meia-dúzia de portugueses comentavam o emblemático e recém-cometido gesto do Futebol Club do Porto: no início do jogo dessa noite fizera-se um minuto de silêncio no Estádio do Dragão e as dezenas de milhares  de pessoas que enchiam o recinto puseram-se de pé e entoaram o “Saudade”. Juntando-se ao pequeno grupo, a Ministra ouviu a história e vi, pela sua expressão e pelo pedido de repetição de alguns detalhes, que a homenagem portuguesa a tinha impressionado.
Mais tarde, já durante o jantar, o grupo musical que abrilhantava o fundo sonoro, tocou o “Saudade” e a Ministra, mal eles terminaram a canção, pediu o microfone ao cantor e falou o que lhe ia na alma. Sobre Cesária, fundamentalmente, e o que ela acabara por ser ao tornar-se, pela música, embaixatriz de Cabo Verde no mundo. Não deixou, como eu sabia que aconteceria, de referir o que se tinha passado, escassas horas antes, num estádio de futebol português e o quanto isso lhe fora grato conhecer.  Encaixado entre benfiquistas e sportinguistas, que os meus comparsas portugueses no jantar eram todos do Sul, senti o quentinho que subia em todos nós daquela salva de palmas e, adjunto, um suplemento de brilho pela iniciativa mais bonita daquele dia ter brotado em gente da cidade onde nasci.   

© Fotografias: (1) Expresso das Ilhas, Cabo Verde; (2) Pedro Serrano, sobre convite do Ministério da Saúde de Cabo Verde, 2011.

26 dezembro 2011

O CASTELO NAS NUVENS


Estávamos a repousar num amplo terraço verdejante, o qual podia muito bem ser o espaço comum de um hotel nas margens de um lago suíço. Eu sentava-me, meio de través, numa daquelas cadeiras desdobráveis de lona e madeira, cujo assento e encosto das costas são em tecido branco, e olhava uma mesa onde repousava uma coruja empalhada, encarrapitada num ramo de árvore artificial, atarraxado a uma base de jade. Ao lado da coruja, sobre o tampo de vidro da mesa, um livro aberto, com uma caneta a servir de marca, um daqueles canhenhos volumosos onde se deixam mensagens de presença em casamentos e funerais.
“Bonita coruja”, comentei, “será que está à venda?”
A meu lado, reclinado numa cadeira de convés, o Juca esclareceu:
“Não é para venda! Está aí para anunciar as visitas guiadas aos ninhos dos mochos do castelo, o livro é para registar as inscrições...”
E estendeu um dedo entediado, indicando onde tudo isso se passava. Olhei: ao fundo, recortado contra o céu azul-claro de uma tarde que se esfriava, destacava-se uma enorme construção, com vários corpos, recordando o Castelo Howard, em Inglaterra, onde foi filmado grande parte da série Brideshead Revisited.
Sim, pensei, podia haver muita coruja, muito mocho, acoitado naquelas cúpulas todas, em todas aquelas cornijas... Por uma feliz coincidência ou por um qualquer acaso significativo, no preciso intervalo em que o meu olhar ainda se detinha nos telhados do palácio, uma das alas superiores da imensa mole de pedra destacou-se do edifício e voou, perfeita, no céu, dirigindo-se na nossa direcção e ganhando altitude.
“Como é possível?”, balbuciei alto, vendo deslocar-se, íntegra, sem uma pedra que desmoronasse, um vaso de rocha que oscilasse, uma gárgula que tremesse, uma esquina que esfarelasse, aquele pedaço do edifício.
O Juca, uma mão em pala sobre a testa, manteve-se em silêncio, observando fascinado aquele fenómeno aeronáutico de invulgar arrojo, até que, ao passar sobre nós a caminho da linha do horizonte, a ala do castelo se volveu num avião de grande porte que, ao curvar graciosamente, expeliu duas linhas de fumo branco das traseiras mas manteve, até que o perdemos de vista, todos os contornos distintivos de um castelo-palácio inglês do século XVIII.
“Este gajos do Brideshead fazem tudo em grande estilo”, exclamou o Juca, “olha-me só o cunho personalizado que imprimem aos seus aviões... Nunca tinha visto nada parecido!”
O Juca ainda lá ficou, no relvado, esparramado na sua cadeira de convés, eu, contudo, acordei logo a seguir.

© Fotografias de Pedro Serrano: (1) Porto, Junho 2011; (2) Leipzig, Novembro 2011.

21 dezembro 2011

O CANTAR DAS CHÁVENAS


Da direita para a esquerda: Domingas, Chitungo, Ana Cristina.
O encerramento do curso teve lugar no Sábado, mas já quinta-feira lhe nascia uma lágrima ao canto do olho.
“Então, Domingas...?”, repreendia-a carinhosamente a Ana Cristina.
“Já viu, doutora”, lamentava-se ela, “prá semana já não vai estar cá ninguém...”
E enquanto nós e os alunos rodopiávamos de azáfama, achando o tempo curto para o muito que ainda faltava concluir, ela antecipava uma eternidade silenciosa e solitária.
A Domingas é uma mulher jovem, baixinha e tímida, apagando-se na modéstia da sua função e, na soma disso tudo, demorei a dar-me conta da dimensão daquela pessoa que me saudava com um sorriso envergonhado todas as manhãs quando, ao bater das oito e meia, eu atravessava o átrio, enfeitado com plantas a crescer em garrafas de plástico cortadas ao meio, que levava à cave onde decorriam as aulas. Por volta das dez e um quarto ela descia contidamente as escadas e, pouco depois, ouvia-se um discreto tilintar de chávenas por trás do biombo azul que separa a sala da mesa redonda onde era posto o lanche do meio da manhã. Café, chá, sumos de fruta e, consoante os dias e as subscrições, bananas, bolachas, mel, cuscuz de milho com manteiga, ou rissóis de atum, pizza de atum, pastéis de atum, que o atum é um peixe popular e abundante em Cabo Verde.
“Domingas”, dizia eu, brincalhão, “corta-me uma fatia de bolo de atum?”
Ela ria, transformando os olhos amendoados e inteligentes numa fresta, devolvendo-me a piada na próxima oportunidade. Depois, a cada dia que passava, fui notando a presença daquela rapariga que, no intervalo dos lanches e das limpezas, se sentava no topo da mesa da biblioteca, compenetrada num dos abundantes portáteis do Centro de Formação e Especialização Médica.
“Que é que você procura aí?”, perguntava, curioso.
Ela encolhia os ombros, acanhada e modesta, mas traindo-se no à vontade com que usava o rato.
“Coisas... Notícias, o Messenger...”
“Nunca pensou em estudar?”, queria eu saber, achando que lhe calhava bem aquele fundo de estantes de livros e a atenção dedicada à tarefa de navegar no éter, tão distinta da pose com que nos servia o café e os bolos, com que nos ia cumprir um recado.
Acenou que sim. Tinha estudado até ao sexto ano, depois interrompera, tivera dois filhos, inscrevera-se outra vez nas aulas mas desistira por falta de tempo, de estímulo.
“Aproveite agora, pense nisso”, insistia, pois ia percebendo como era sagaz aquela pequena mulher que, com o assentimento amistoso de todos os alunos do Curso, iniciava a preparação dos nossos lanches pela reserva de uma porção do mesmo para os filhos pequenitos que a esperavam em casa.
No Sábado de manhã, lá andava ela, impecável na sua camisa branca debruada a anil, na saia azul do seu uniforme de servente, apagando-se naquela multidão de ministros, embaixadores, directores, representantes, a TV de Cabo Verde, mas sempre desperta para os pormenores e pequenas necessidades.
Antes da debandada, todos quisemos tirar fotos com ela, o Chitungo (um médico angolano, do Huambo), na seu jeito generoso, não a esqueceu nos embrulhos de Natal que distribuiu por todas as colegas do Curso. Depois das fotos tiradas, ela continuou junto de nós, servindo de fotógrafa a todas as possíveis poses do grupo, pegando, à vez, em cada uma das cinco máquinas digitais enfileiradas sobre o gerador com o à vontade de uma profissional, disparando sem hesitação e vindo-nos mostrar cada um dos enquadramentos a que chegara.
No último beijo, no último abraço, ela voltou à sua ideia fixa:
“Ai, doutor, já viu como vai ser na segunda-feira? Nem vou ter que fazer, aqui sem ninguém na sala lá em baixo...”
Sim, saudade era uma palavra e um sentimento que todos os presentes conseguiam partilhar, e cada um no seu jeito angolano, português, cabo-verdiano, guineense, são tomense, ia ter saudades daquele ano passado junto, mas ninguém as iria sentir morder na pele como ela quando, por volta das dez e um quarto da manhã, lhe faltasse o tilintar das chávenas na sala lá de baixo.

© Fotografias: (1) Almeida Chitungo; (2) Pedro Serrano. Praia (Cabo Verde), Dezembro 2011.

15 dezembro 2011

PRIMEIRO BEIJO (ao vivo)



Canção: "Dor Di Nha Alma"; autor Betù. Cantora: Lucy; pianista: Manuel Candinho. Ao vivo no Nice's Cachito, Praia (Cabo Verde), 10 de Dezembro 2011. © Video de Pedro Serrano, filmado em câmara Leica V Lux-20. Veja também no YouTube em: http://youtu.be/qNZoVgoI9gQ


Duem tcheu
Alma pertam ta tchora
Bo nha rainha c'ainda onte
Juram bo amor

Pa ba na kel mesmo lugar
Cum prova mam'crebô tcheu
Cai na braços ki ka di meu
Ki ka di meu

Magoam la na fund’ do coraçon
Corpo derretem
Solvê na mar d'ingratidão

M'ta lembra nos primero beijo
Era segredo d'nos paixão
Pa caba'sim di note pa dia
Note pa dia

Hoje pa bô, mim m'ka nada
Um indiferença
Bo ta spiam
Ka t'odjam
Pior ki morte

Ma disilusão ta dué
Ta quema ki nem lume
Ta foga ki nem agua
T'arasa ki nem vente
Nha amor
Nha fantasia
                                   

10 dezembro 2011

O TÁXI HUMANO

Aqui, na cidade da Praia, vou todos os dias tomar o pequeno-almoço ao Pão Quente, um café-pastelaria de índole fortemente caseira, onde me sento e peço, em português sonolento, a uma das empregadas de turbante cor-de-laranja: "Queria uma carcaça com queijo, sem manteiga, e um Ucal de chocolate fresco..." No estrangeiro, melhor do que isto, é difícil de imaginar, não?
Pois o Pão Quente do Plateau, aquele que frequento de manhãzinha antes de começar o trabalho, está pujante e abriu agora duas filiais na cidade: uma no Palmarejo, lá para os lados do Palácio do Governo, e outra na Achada de Santo António, mesmo em frente aos nossos apartamentos da Cooperação Portuguesa.
Hoje, que é Sábado, fui lá tomar o meu pequeno-almoço tardio e, enquanto esperava, fui reparando que, por cima da caixa, havia uma fotografia emoldurada de um velho senhor sorridente, na qual, como legenda, se lia "DÁTI, Táxi humano". Curioso, como sou, não demorei a perguntar quem era e porque ali estava aquele retrato. 
A moça do turbante cor-de-laranja de serviço aos trocos explicou que Dáti era um homem que transportava, fosse o que fosse, de um local para qualquer outro local, cobrando sempre a quantia de 2$00 escudos (cerca de 17 cêntimos), independentemente da distância percorrida e da carga ser um bidão de água, uma bilha de gás ou um saco de cimento.
Dáti morava numa casinha modesta, situada no local onde agora inauguraram o Pão Quente da Achada de Santo António, e, embora já falecido, continua a ser um personagem querido na zona.
"Ah, então foi uma espécie de homenagem que vocês lhe resolveram fazer..."
Ela abanou o turbante afirmativamente e fechou a gaveta da caixa registadora sobre o troco que pousara na palma da minha mão.






Fotografias de Pedro Serrano: (1) Praia, Santiago, Dezembro 2011; (2) Pão Quente do Plateau, Praia, Santiago, Setembro 2011.

08 dezembro 2011

ASSENTO ORTOGRÁFICO

Pombas acentuáveis

© Foto: Pedro Serrano, Cabo Verde, Dezembro 2011.

04 dezembro 2011

ENTRETANTO EM CABO VERDE...

Já se prepara afanosamente o Natal
Mas continua a saber bem uma boa sombra...
© Fotografias: Pedro Serrano, Cabo Verde, Dezembro 2011.

03 dezembro 2011

Contigo en la distancia (2.º andamento)


Em termos musicais julgava que Cuba era caso único, que não existia outro país no mundo onde, sem mexer um dedo, uma pessoa passasse o dia imerso em música, em que a música fosse tão inseparável do batimento vital dos habitantes.
Até escrevi por aqui um texto sobre isso (Contigo en la distancia), mas enganei-me na exclusividade do território e a palmatória chegaria à minha mão sete anos depois, num frio dia de fim de Outono...
Numa gelada noite de Novembro, saído de um avião a hélice que me trouxera de Munique, apanhei um táxi para o centro de Leipzig onde iria passar o fim de semana. Leipzig é uma cidade da antiga Alemanha de Leste e é impossível passear pelas suas ruas, sobretudo ao cruzar a antiga sede da Stasi (a terrível e eficaz polícia política do regime comunista da defunta Alemanha Democrática), sem sentir um calafriozinho e dirigir uma prece a John Le Carré.
Leipzig é uma urbe tranquila, lembrando um pouco o Porto no seu tom geral acinzentado, nos seus edifícios de pedra inteira. O trânsito, pelos padrões europeus, é escasso e silenciosos eléctricos atravessam a cidade a toda a hora, ao minuto previsto no horário. E, a pouco e pouco, a gente começa a reparar: ponte Beethoven, avenida Gustav Mahler, escola de música Félix Mendelssohn... Tal como já sucedia nos séculos XVII e XVIII, em Leipzig as igrejas continuam a ser o grande centro musical da cidade, eu que o diga que em dois dias assisti a dois concertos em duas igrejas e, se tivesse ficado mais tempo, poderia continuar nesse regime de modo indefinido, pois todas as semanas há um programa musical diferente.
Nesta época do ano às quatro e meia já é noite e a foto da ponte Beethoven (aqui ao lado) foi tirada às cinco da tarde por umas mãos que ficaram geladas só pelo breve minuto que ficaram fora das luvas de lã polar. Depois, fomos à missa das seis da tarde na igreja de São Tomás, um edifício tão descomunal que, pelas nossa bitola arquitectónica, mais parece uma catedral e onde, entre 1727 e até à sua morte em 1750, João Sebastião Bach foi o mestre da música que se organizava pela cidade e principal instrumentista do órgão que ainda existe em São Tomás.
Apesar de duraram uma hora, as missas luteranas são menos chatas do que as nossas e bastante mais inspiradoras. De todo o tempo da cerimónia, o padre fala, no máximo, uns quinze minutos, alguns dos quais para enquadrar e anunciar as peças musicais que vamos ouvir de seguida. Durante o resto do tempo os fiéis escutam música pura e se uns rezarão com a banda sonora ideal, outros perder-se-ão em pensamentos vários e vagos e os restantes ouvirão apenas música. Música de Bach, naturalmente, algumas daquelas cantatas que ele produzia ao ritmo de uma por semana, mas também peças de colegas seus da época e, ainda, autores contemporâneos, interpretadas nesse dia por um coro de rapazitos cujas vozes angelicais e os agudos desumanos nos transportavam para um reino que não é decididamente deste mundo.

Confortados, percorríamos, silenciosos, as antigas ruas da cidade em direcção ao nosso jantar quando reparei num cartaz afixado na frontaria da igreja de S. Nicolau.
“Que engraçado! A semana passada comprei em Lisboa a Missa de Requiem do Verdi – apeteceu-me ver como seria um requiem do século XIX – e agora olha para ali...”
Ele observou com cuidado o cartaz que anunciava, para o dia seguinte, a Missa de Requiem de Giuseppe Verdi, às dezassete horas, na igreja de S. Nicolau.
“Queres ir, pai?”, perguntou.
Fomos. Aquilo durou duas horas, que passaram sem se dar conta, e na nave da igreja, invadindo a zona do altar, uma multidão de mais de cem pessoas, entre músicos, maestro e cantores, derramou sobre a igreja cheia a obra italiana que, aqui e ali, faz lembrar uma ópera. E, às nove e meia da noite, estávamos já a descer as escadas de uma cave onde assistimos a um belo concerto de jazz dado pelos Apfelkomp(l)ott Compota de Maçã, um trio de saxofone-contrabaixo-bateria formado por colegas do Zé João na escola de música Felix Mendelssohn.
No dia seguinte, a meio de um domingo que já anoitecia, despedi-me dele à porta da gigantesca estação de comboios de Leipzig. Pouco depois estava no aeroporto, a aguardar o meu avião para Frankfurt, de onde teria voo de regresso a casa.
Quando o avião levantou voo, colei a cara ao vidro crescentemente esfriado da janelita, vendo as luzes de Leipzig cada vez mais ao longe e o negrume da noite fechando-se sobre aquele lugar perdido no mundo onde ficava, entregue a si próprio, o meu filho.

© Fotografias: De cima para baixo: (1) Máquina fotográfica usada pela Stasi, fotógrafo desconhecido; (2) (3) (4) (5), Pedro Serrano, Leipzig, Novembro 2011.






30 novembro 2011

Um Novembro como esse

   Entretanto, na Prainha, o tempo continua de banhos.

© Foto: Pedro Serrano, Cabo Verde, 2011

23 novembro 2011

LUZ DO SOL


Afinal
Aquelas tais estrelas cintilantes
D’outrora
Não são mais que mica brilhante
Agora.
Recamavam o banco de granito
Onde me empoleirava a espreitar
A procissão oscilante sobre pétalas
D’outrora
E onde me sento a descansar
Agora,
Friorento, semicerrado e mole.
Sobrevivem-nos as pedras e
A luz do sol

© Fotografia: Pedro Serrano, Leipzig, Novembro 2011.

22 novembro 2011

Cantai uma canção nova ao Senhor*


© Fotografia: Pedro Serrano, Leipzig, Novembro 2011.
Sentada na fila à nossa frente, a menininha da foto, mal o primeiro acorde do órgão se fez ouvir na imensa nave, não teve hesitação em olhar para cima, à procura da fonte daquele som.
Lá no alto, naquele mesmo balcão, há 260 anos atrás, o homem que pedalava o instrumento dava pelo nome de João Sebastião Bach e todas as semanas gostava de estrear naquela igreja, de que era mestre-cantor, uma composição sua dedicada ao Senhor, pois era o modo de garantir que lhe pagavam o ordenado ao fim do mês.
Quem mais lucrou com isso fomos todos nós, os que viemos a seguir, inclusive a menininha do casaco vermelho.




*J.S. Bach: "Singet dem Herrn ein neues Lied", BWV 225.

12 novembro 2011

MARINA, MARINA!


Esganado de fome, ao avistar no horizonte a área de serviço de Santarém virei-me para a minha acompanhante e quase mais afirmei do que perguntei:
“Paramos aqui a comer qualquer merda?”
Ela acenou com a cabeça, eu apressei-me a fazer pisca e desaguei na zona do restaurante.
Estranhará o leitor menos avisado que tenha usado de linguagem tão desassombrada para com a senhora que seguia no banco ao meu lado, mas tudo se harmonizará se revelar que a Carolina T. é natural do Porto e não se choca com trivialidades. Em abono dela, posso ainda acrescentar que é pessoa que abriga na mesma alma um coração de ouro e um humor com um concentrado cáustico capaz de desincrustar a ferrugem de um submarino afundado nas águas de Matosinhos há cem anos.
Nesse dia, viajávamos de Lisboa, onde tínhamos estado a trabalhar a semana inteira, e como eu ia para o Porto, sendo ela de lá, partimos em boa companhia, o estômago a dar a uma da tarde, a ronronar, mas nós ignorando-o para não atrasarmos a saída e a chegada.
Após percorrermos o passeio dos tristes em volta dos expositores do self-service entrámos de cotovelos em riste com os nossos tabuleiros na zona das mesas, o pescoço esticado à procura de um local aprazível. Sentados, depois de uma fatia de broa aviada com rapidez, alcancei então o apaziguamento gástrico que me possibilitou circunvagar o meu olhar pela sala.
“Não olhe de repente, mas acho que está ali o Zé, aquele juiz amigo do Carlos e da Isabel...”
“Quem?!”, perguntou ela, virando a cabeça na direcção do meu olhar.
“O Zé, aquele amigo do Carlos que é casado com a Marina. Sabe quem é, não sabe?”, insisti, pois a Carolina era também visita regular da casa desses nossos amigos de Viana do Castelo.
“A Marina sou capaz de reconhecer”, disse ela sorvendo uma colherada de sopa, “mas a ele acho que não; penso que só o vi uma vez em Viana, e de raspão...”
“Pois acho que é ele que está ali, com aquela senhora velhota”, continuei, mirando com insistência o tipo barbudo e grisalho que, a duas mesas de distância, se afadigava com os talheres.
A Carolina, já de si personalidade reflexiva, estava concentrada na refeição e mantinha-se monossilábica, deixando largueza à minha tarefa de fixar o outro tipo, na procura de uma confirmação de identidade, suposição que se foi robustecendo, pois, às tantas, pareceu-me que o homem reparara em mim e me olhava com o mesmíssimo ar da pessoa que procura folhear outra nas suas memórias.
“É de certeza ele”, transmiti à Carolina, “a senhora é que não sei quem é; talvez a mãe... ou a sogra”.
Ela fitou-me com um olhar pouco interessado.
Entretanto, na mesa do meu interesse, o par dera por acabada a refeição e começava a levantar-se. Quando o vi em pé, calmeirão, o leve ar de urso desorientado e bonacheirão, tive a certeza que era o Zé da Marina e, à aproximação da nossa mesa, levantei-me célere e atravessei-me no caminho.
“Olá”, saudei, “então por aqui?”, cumprimentei, estendendo a mão ao Zé e dirigindo um aceno à senhora.
O tipo parou, apertou-me a mão, sorriu com familiaridade; encetámos uma conversação sobre o tempo que ia tão mau, o trânsito; o pararmos ali para comer qualquer coisa, encontrarmo-nos assim... Sentada à mesa, despachando uma salada de frutas, a Carolina disfrutava a cena com o interesse suficientemente disfarçado para lhe permitir observar mas não ser chamada a participar na efusividade circundante.  
E, finalmente, eu saquei a carta que era necessário jogar, aquela que me permitiria cimentar em definitivo as coincidência felizes daquele encontro:
“Então e a Marina...?”
O homem alvoroçou-se ao ouvir a palavra, os olhos brilharam-lhe, estendeu umas significantes mãos na minha direcção, e eu arquivei os meus 100 % de certeza de estar perante a pessoa certa.
“Olhe que vamos agora mesmo para lá!”, respondeu, “este mau tempo deu cabo do passadiço, desconjuntou uma série de tábuas e vamos ver como é que ficou o barco, parece que até houve alguns que ficaram a boiar, soltos pela marina!”
Despedi-me o mais rapidamente que me foi possível do entusiasmo do desconhecido, evitando olhar a Carolina que, com o recolhimento de quem acaba de regressar ao banco depois de tomar a hóstia sagrada, tinha enterrado a cabeça no queixo na tentativa de adiar por mais uns segundos a explosão de uma gargalhada.    

© Fotografia de Pedro Serrano, Matosinhos, 2011.

07 novembro 2011

GASPACHO


© Fotografia de Pedro Serrano, Montargil 2011.
Por entre as hélices cromadas dos moinhos de vento
Que trituram o crepúsculo de vermelho em pazadas
Parcimoniosamente medido, ascende em prumo lento
Um delicado fio de fumo branco das queimadas



05 novembro 2011

Sobre putas e vinho verde


Aos dezoito anos acreditava na redenção das putas e nas virtudes da escrita automática, actividade que praticava com três amigos numa mesa de sala de jantar ali perto da Rua da Quinta Amarela. Em substância, todas essas putas eram vagas como a lua que, em meses ímpares, cintilava no verniz da mesa.
Quando Aloísio lhe passou o bloco de papel, para excitar o gatilho da sua contribuição na nova rodada de escrita automática, leu a última linha que o amigo escrevera, depois a penúltima, e a antes dessa...
Uma tarde de Verão indolente, abatida sobre mim, que quedava espapaçado sob uma tília numa cadeira de convés, contou-me como fora violada numa passagem de ano num pequeno hotel de Londres, onde se entediava com a mãe e umas tias de província. Parece que o baterista da banda que tocava na sala anexa ao hall, um tipo despenteado e com a barba por fazer, já um pouco entrado nos anos e nos copos, a fitara toda a noite com insistência. Depois, sem que ela soubesse como, bateram à porta do quarto, a mãe já roncava no novo ano. Ele olhou com um ar descarado para a camisa de noite dela, para o ar ensonado e as coxas nuas e disse que tinha um quarto no andar de baixo, entre a recepção e a sala do pequeno-almoço. Ela (e achou na altura que apenas por tédio) disse “espera aí” em inglês, foi vestir umas calças e uma camisola por cima da camisa. A noite, contou-me, a boca enfiada na minha orelha, os cabelos negros a comichar-me os cantos do nariz, fora uma merda: o gajo estava incoerente dos copos, tratou-a com a brutalidade que entendeu conveniente a uma concordância tão rápida, e uma primeira foda nunca é nada de jeito, como toda a gente sabe mas ela não sabia ainda. Tinha ficado muito traumatizada, confessou-me a coitadinha, puta que a pariu e eu quase a pedi em casamento nessa tarde de Verão indolente sob a tília.
As putas que ele imaginava, pelo contrário, falavam pouco e moviam-se com o modo ausente de fantasmas, a cabeça meio inclinada, como se ocultassem um segredo iluminante; todas carregavam olhos angélicos e mãos de dedos finos cujos gestos ficavam gravados a preto e branco na memória como um filme das fronteiras da nouvelle vague. Respondiam a nomes simples como Joana ou Maria, havia uma estrangeira chamada Jeanne e uma canadiana sardenta chamada Marianne. Moravam em apartamentos quase vazios, um colchão no chão, esquálidos guarda-vestidos; nas noites invernosas rolos de cotão corriam pelo chão como as bolas de ervas sem raiz que rolam nos filmes americanos. Insone, escutando o vento nos estores, apanhava um livro dela do chão, onde ficara abandonado: eram os Pensamentos, de Pascal, na versão original francesa. Sim, podia ir longe com uma puta daquelas, ela podia até redimi-lo de um futuro incerto e demasiado teórico.
Em silêncio passou o bloco a Alexandre, levantou-se, foi espreitar pela vidraça. Lá fora, a chuva caía sem parar, alaranjada como gasolina no tracejado de chuveiro em torno dos candeeiros. Um carro passou, os passageiros embaciados fora de vista. Apeteceu-lhe uma francesinha, olhou para trás. Alexandre terminara o seu contributo, estendia o bloco a Álvaro; este fitou-o e, como se adivinhasse, disse:
“Prepara-te, a seguir és outra vez tu, André.”

© Fotografia de Pedro Serrano, Cabo Verde, Setembro 2011.

01 novembro 2011

SERPENTINANDO


Dir-se-ia que a finalidade de tudo estava concentrada em fazer mover pelo mundo aquela tira infindável de tecido. A faixa tinha uma largura uniforme, mas os seus motivos mudavam a cada três metros, ou por aí, como se fossem saris, capulanas ou outros panos estampados costurados numa sucessão infinita.
Agora eu e X fazemos parte de uma fila de gente que, em passo rápido, percorre uma estrada que ladeia um monte e serpenteia até ao cume. Há gente que transporta a faixa á nossa frente, vemos gente a empunhá-la nos braços estendidos nas curvas da estrada abaixo de nós. Aquela serpentina sem fim dá forma a uma bela imagem, todas aquelas pessoas contrastando em cor e movimento no verde luxuriante da montanha.
Fascinados, um tanto eufóricos com toda aquela azáfama, X e eu desatámos a correr por ali acima com os nossos metros de faixa, como se quiséssemos fazer levantar no céu um papagaio de papel, ultrapassando o pedaço de fila que nos antecede e caminha ordeiramente em direcção ao cume.
Ao chegar ao cimo avistámos um enorme edifício, envidraçado, parece-nos um centro comercial com mais luz do que o habitual. Umas dezenas de metros antes de o alcançar somos interceptados por alguém que é responsável pelo fluxo da marcha e nos diz:
“Então? Têm de ter calma! Já tivemos de abrandar o passo dos outros para que isto não se ensarilhe tudo!”
E, de facto, as pessoas que no chão cor de colorau da estrada se aproximam do edifício movem-se em câmara lenta, algumas avançam um passo para logo o recuar.
Entrámos no hall do edifício com os nossos pedaços de faixa bem esticados expostos nos braços. Uma rapariga morena, de cabelo encaracolado e húmido, dá mostras de estar ali para preferir, naqueles km de pano estampado, o meu pedaço. Estendo-o na direcção dela, ela dá um passo atrás.
“Não faças isso”, segreda-me X. “Assim os outros vão pressentir que ela quer o teu bocado, vão antecipar-se e roubar-lho...”
Encolho o gesto até passar ao lado dela, chegar a sua vez, e ela abrir os braços para tomar o meu pano. O meu pedaço, reparo agora, ostenta um padrão xadrez, uma combinação de cores em vermelho e negro.
“Tenho em casa uma mala de viagem, em napa, que condiz mesmo bem com o seu pano”, digo quando ela começa a envolver na cintura o pedaço de faixa quadriculado.

© Fotografia de Pedro Serrano, Porto 2011.