01 março 2015

NÃO VENHAS TARDE: 1. A MALDIÇÃO GREGA

Um dia do início do Verão de 1976 na cidade do Porto, em hora avançada da tarde. Ao volante de um Fiat 128, azul-escuro, atravesso a cerca do Hospital de S. João com o intuito de espreitar a classificação obtida no último exame da última cadeira que me separa de um diploma de médico.
Naquele carro, nenhum dos dois passageiros experimenta apreensão quanto ao eventual resultado e nem pela cabeça nos passa chumbar naquela disciplina, Oftalmologia, se não me enganam os anos entretanto passados. Mas essa previsão de sucesso não se reflecte no silêncio em que estaciono o carro e nos dirigimos à entrada de um dos pavilhões pré-fabricados que, sob a pressão da democratização do ensino universitário, começam a juncar os frondosos e amplos jardins do hospital, onde, ano lectivo findo e pares de namorados desaparecidos da relva, os pássaros se entretêm ruidosamente a saudar o fim do dia, alheios a quem passa.
Mudos, observamos as nossas gémeas e excelentes classificações e, sem uma palavra, regressamos ao carro. Aquela extensa lista de nomes, autenticada pela assinatura de um professor, significa um facto a que não se pode reverter a nódoa: a partir desse momento, para todo o sempre, seremos médicos; os seis anos de Faculdade tinham chegado ao fim e essa consciência vibra na minha cabeça com a surdez e a insistência de um diapasão.
Sentado ao volante, olhando o parque de estacionamento deserto, sinto a angústia tomar conta de mim e, mesmo sem olhar, pelo silêncio carregado como chumbo que emana do banco ao lado, percebo que o mesmo se passa com o Juca.
– Agora é que estamos fodidos... – desabafei, como se, encostado a uma parede, anunciasse a vista do pelotão de execução.
– Vamos mas é embora daqui... – rouquejou ele com o incómodo de quem dá conta que se deixou esquecer num cemitério após o anoitecer.
Acendi um cigarro, encaixei por trás da orelha a madeixa de cabelo que me caía sobre os óculos e arranquei em tubo de escape roufenho.
Imperturbável, a tarde de Verão transborda num poente esbarrondado e, Circunvalação abaixo, apercebíamos tons de vermelho sangrando-se para os lados do mar.
– E agora, que fazemos?
– Sei lá… – sugeriu ele.
– Podíamos passar pelo Piolho, ver se está lá alguém e, depois, ir jantar a qualquer lado... que dizes? Comemorar o desastre...? Mas primeiro tenho de passar por casa, prometi aos meus velhos que dava notícias mal ficasse médico.
– Tá bem – concordou o Juca, arrastando o tom de frete tanto quanto eu, mas que, lá no fundo, não se importava de passar por casa dos meus pais, pois mantinha uma oculta e cerimoniosa simpatia pela minha irmã mais nova.
À noite, durante o jantar na Marina, informei o Rui, que não se dera ainda ao incómodo de passar pela Faculdade, que também ele passara na última cadeira e era tão médico como nós.
– Tiveste dezoito a Oftalmo, doutor...
– Dezoito!? Imagina quanto teríamos tirado se soubéssemos alguma coisa daquela merda! – E, logo de seguida:
– Como é, sempre vamos?
– Vamos... – respondi sem hesitar, mas sentindo no estômago o frémito de quem se compromete com o desconhecido.
Começámos, em volta do bolo de bolacha, a ventilar pormenores e decidimos que partiríamos apenas em Setembro, pois tínhamos ideia vaga de que as monções terminavam por essa altura e que a viagem seria melhor com um calor menos húmido.
– Vamos ter de fazer uma porradaria de vacinas – lembrou ele, e recomendou:    – Vê se começas a tratar do graveto com o teu velho...
– Com isso não vai haver azar – retorqui, – há seis anos, para me picar, prometeu que se me formasse sem chumbar nenhum ano me oferecia uma viagem de curso onde eu quisesse...
Mas o que o meu pai nunca imaginou foi que a “viagem de curso onde eu quisesse” era uma jornada à Índia, ainda por cima por terra; um Overland to India como estava então na moda, especialmente desde que os Beatles se tinham mandado para lá. E, tomando como padrão esse marco famoso, já lá iríamos chegar, se o conseguíssemos, oito anos atrasados!
À imagem dos meus colegas de licenciatura, alguns deles ínclitos filhos de colegas de consultório, o meu pai contava que lhe fosse pedir fundos para uma passeata de duas ou três semanas por Itália, pela Suíça, pela Escandinávia, em termos de máximo atrevimento geográfico pelo Canadá ou os Estados Unidos... Assim, quando lhe soprei a sucinta comunicação da decisão de ir à Índia, mais ou menos a pé, e gastar nisso os cinco meses que me separavam do início da vida clínica, ele passou-se:
– À Índia! Por terra?! Tu saberás o que estás a dizer?! Sabes onde aquilo é? Já viste no globo, ou num mapa, a distância e os países que terias de atravessar? Tens uma noção do reboliço que vai por aquelas bandas? Na maior parte desses lugares não existe sequer uma embaixada portuguesa!
Com a frugal leveza dos vinte e três anos assegurei-lhe serenamente que sim, que sabia muito bem onde me estava a meter: que cerca de doze mil km nada eram para mim; que a circunstância de a Grécia e a Turquia estarem de candeias às avessas; o Afeganistão ser um covil de bandidos; e o Paquistão estar, mais ou menos, em guerra civil não era coisa que atrapalhasse os nossos planos...
O meu pai era um cirurgião com uma grande paixão pela História, interesse sobretudo alimentado pelos países da orla do Mediterrâneo onde nasceram as grandes civilizações, como a egípcia e a grega. Todos os meses chegava a nossa casa um exemplar do Courier da Unesco e mantinha, bem rodados e isentos de pó, um globo terrestre e um enorme atlas-mundi na estante do escritório; estava bem a par de como o mundo se movia em torno do seu eixo naquela segunda metade da década de 70.
Do que ele não estava à espera é que, sem antes ter demonstrado um pingo de interesse por História ou Geografia e tendo por única experiência de viagem uma ida, em excursão semanal, com a família, a Londres, um filho seu se resolvesse a palmilhar aqueles caminhos pedregosos e inseguros. No seu desespero por me dissuadir daquilo que entendia ser um capricho sazonal cometeu um erro fatal: ao negar o apoio financeiro, que teria todo o prazer em fornecer se o meu destino fosse outro que não a Ásia, foi como se entalasse o meu sonho. E quando lhe recordei a promessa de financiamento, rematou:
– Dou-te exactamente o dinheiro com que se pode sair do país, nem mais nem menos.
Estávamos nos anos em brasa da Revolução dos Cravos e, tentando estancar a hemorragia de capitais para o exterior, o Governo determinara como plafond máximo de exportação de divisas os sete contos de réis (cerca de 35 euros), quantia rasamente suficiente, à época, para ir passar uma semana de fish and chips a Londres ou regressar de Paris com pouco mais do que um vinil do Leo Ferré e uma torre Eiffel em filigrana dourada. Isto é: aquela generosidade pela bitola oficial, obrigatoriamente averbada nos passaportes, cortava-me totalmente as asas. Fiquei furioso, senti-me traído, e, antes de sair do escritório, atirei:
– Pois saiba que hei-de ir de qualquer maneira...
– Oh, menino, não hás-de passar da Grécia – ouvi-o ainda amaldiçoar.
No hall, dei com a minha mãe que, com cara de caso, planava por ali como um abutre sobre as Torres do Silêncio de Bombaim.
– Que se passa...?
– Nada, – lati – apenas gente que quando chega a hora da verdade não cumpre o que prometeu...  – Azedo, informei ainda:
– Vou sair, não esperem por mim para jantar...
– Não venhas tarde – suplicou, um ar de sexta-feira santa espraiando-se-lhe nas feições.
– Nunca se sabe... – respondi, misterioso, – talvez não volte mais.
© Fotografia de Pedro Serrano, Porto, 2010.

26 fevereiro 2015

NÃO VENHAS TARDE: Prefácio com sobretudo

No Verão de 1976 eu e um amigo decidimos fazer da nossa viagem de licenciatura um Overland to India, uma viagem por terra até ao Oriente como estava então em voga.
Chamei ao relato escrito dessa viagem, baseada no diário que escrevi na época, enriquecido pelas memórias que ainda guardo desses dias e avivado pelas deslocações que continuo a fazer para aquelas bandas, chamei a esse relato Não Venhas Tarde, um chamamento de todas as mães que Leo Ferré (na canção “La Vie d’Artiste”) poeticamente designaria como les mots des pauvres gens: “Ne rentre pas trop tard, surtout ne prends pas froid...”
Retomando aqui um meio usual no século XIX para tornar público num jornal um romance ou outro texto extenso – o folhetim, praticado, entre outros por Charles Dickens, Eça de Queiroz ou Camilo Castelo Branco – divulgarei nos próximos meses, sob o formato de episódios, os 45 capítulos do livro que acabei recentemente de escrever e que, no seu todo, terá umas 240 páginas.
A esse todo, enriquecido com maior número de fotografias do que as que constam no original, omitirei aqui as dedicatórias, mas manterei a epígrafe, pois adverte o leitor para uma certa perspectiva assumida pela narrativa.

The bird with feathers of blue
Is waiting for you
Back in your own backyard.

You'll see your castles in Spain
Through your window pane
Back in your own backyard.

Oh you can go to the East
Go to the West
But someday you'll come
Weary at heart
Back where you started from.

You'll find your happiness lies
Right under your eyes
Back in your own backyard.


Al Jolson/Billy Rose
(Da canção "Back In Your Own Backyard")



24 fevereiro 2015

ERAM QUASE MAIS LARANJAS...

Na entrada das traseiras da casa, que foi a dos meus avós paternos, eram quase mais laranjas do que folhas e a árvore, que já por ali anda talvez há uma centena de anos, não aguentou: partiu-se em duas e encheu o chão tristonho de inverno de luz concentrada.
© Fotografias de Pedro Serrano, Queirã (Viseu), Fevereiro 2015. 

17 fevereiro 2015

ALVÍSSARAS


Se acaso uma manhã eu desaparecer
E não seja, assim, um caso de morrer
Procurem-me naquela ilha à beira-mar
Pode ser que esteja por lá a scismar

Ou talvez que esse leito circundado
Por casario debruçado sobre um lago
Seja o meu, que ali sonha naufragado
Com poentes destingindo-se em dourado

Mas se nem ali houver qualquer sinal
Mais além, na fímbria daquele areal
Rabiscado pela sombra dum coqueiral
Talvez seja quem, lá longe, se vê mal

© Fotografia de Pedro Serrano, Goa, 2011.

16 fevereiro 2015

COQ AU VENT


Foi em pequena, quando tive a coqueluche
O meu pai trouxe-me um boneco de peluche
Uma abelha amarela a que chamei Mouche
Com champô e esponja lavei-a bem no duche
Finou-se, amolengada, a pobre da Mouche
Não mais verti lágrimas em bonecos de peluche

13 fevereiro 2015

VOU-TE CONTAR: 68. O BROCHE E O SEU CONTEXTO

Não quer dizer que não aparecessem de vez em quando a visitar o irmão que morava no Porto, mas o mais frequente era sermos nós a ir lá, a Viseu e aos arredores de Viseu onde elas moravam que, para a maioria, a diáspora foi de raio curto.
Agora, as cinco ao mesmo tempo no Porto, na escadaria recente da casa do meu pai e todas de broche ao peito? Aquilo foi um acontecimento qualquer, o que seria? A própria inauguração da casa; o casamento da minha irmã mais velha; um aniversário em números redondos do meu pai? Sei lá, falta uma data no verso da fotografia, o meu pai às vezes identificava lugares e datas... Só ali não está a minha tia Ilda, mas essa estava em Angola, no Lobito – tinha bom pretexto para faltar à chamada – o que quer dizer que aquilo é pré 1974, antes da debandada.... e foto a preto e branco condiz com esses dias.
De resto, estão as outras cinco: de cima para baixo e da esquerda para a direita Clara, Amélia Céu; Celeste e Otília na primeira fila. A minha tia Céu (em último plano, encostada à parede) era a mais velha, foi uma espécie de mãe para o meu pai, tomou conta dele que era órfão como ela, estava sempre atenta e entregava-lhe umas notas amarfanhadas quando o sentia mais apertado com as despesas dos estudos, o meu pai tinha uma enorme admiração e afeição por ela; nós também, porque víamos que era assim e não tínhamos nada que indicasse o contrário.
Por baixo dela, de óculos fumados, está a tia Otília, a tia de bigode como é próprio de uma tia solteirona. Mantinha o buço rapado curto, picante, e deixou-nos tudo quando morreu, ainda andamos a dividir cadeiras de palhinha, louças e cobertores de papa em lotes de cinco; a casa dela vai agora à praça, a parede da sala onde passávamos a passagem de ano tem uma brecha com vista para as silvas do quintal. A mais bem-humorada, embora não se note, é a de olhar arregalado, no meio da segunda fila, a minha tia Amelinha, uma brincalhona gozona, e uma alma doce; casada com um homem também doce e que percebia imenso de alambiques; não tiveram filhos, deixaram pinheirais e matas como quem deixa esquecido um monte de lenços de assoar.
E de tias daquele lado – paterno – estaria tudo, não fora o meu tio Zé, que o outro tio homem que restava seguiu a igreja e, que a gente saiba, não teve filhos das muitas freiras que a gente via esvoaçar em torno dele. O tio Zé partiu ainda adolescente para o Brasil, nunca mais ninguém o viu, nunca escreveu uma linha para Portugal, como é possível desligar assim? Suponho que terá pisado o convés aborrecido, nunca soube com o quê, ninguém falava nisso, havia quem dissesse que o tinham envenenado com assuntos de partilhas e heranças. O meu pai, a quem a ausência fazia mossa, não desistiu de o procurar, mantinha em permanência contactos acesos nos consulados, sempre que alguém dos seus conhecimentos ia ao Brasil encomendava informações como se o Brasil fosse assim a aldeia onde todos tinham nascido. E o que é certo é que um dia teve sorte, recordo a excitação, e não tardou um fósforo que não se pusesse a caminho com a minha mãe, levantaram voo assim que tiveram a certeza que não seriam mal recebidos, que a visita não era indesejada: o meu tio Zé deixara-se descobrir, morava em São Paulo, tinha casado, também não era pai de filhos.
Os meus pais regressaram contentes do Brasil, a minha mãe muito impressionada com as adivinhações e premonições que se praticavam em casa deles, o meu pai impressionado com a mulher dele, uma mulata – como a da canção - chamada Leonor, requintada, professora na faculdade de letras. E assim se fez a minha sexta tia paterna, na foto a cores com a minha mãe e o tio que nunca vi em carne e osso, uma tia mais dada a emoldurar-se com colares do que com broches; talvez a coisa tenha a ver com os descobrimentos e o clima.



© Fotografias; de cima para baixo: (1) Porto, data e fotógrafo desconhecidos, (2) São Paulo, Brasil, fotografia de Eduardo Serrano, 1972.

08 fevereiro 2015

VOU-TE CONTAR: 67. PAZ DOMÉSTICA

Quem parece estar mais apetrechada para, a qualquer momento, levantar voo e desaparecer por entre as nuvens de estúdio que fazem o fundo do retrato é a minha avó Zaida, propulsionada pelo seu laçarote, imenso como uma hélice, e estabilizada na rota pelas duas pequenas ventoinhas penduradas ao pescoço. Mas, de momento, as três senhoras estão imóveis e o silêncio palpita na fotografia, instantâneo que, a julgar pelas texturas, idades e parentesco de quem ali posa, deve ter sido tirado ainda no século XIX, embora já nos anos de mil oitocentos e noventa e muitos, nas redondezas da última epidemia de peste no Porto, praga que estarreceu a cidade nos idos de 1899. Para onde terá o fotógrafo aconselhado que olhassem, já que nenhuma fixa a objectiva ou um horizonte comum?
A dama do centro, a de peito canoro e bem estofado, é a minha bisavó materna, Emília,Figueirinhas por matrimónio, e a minha tia-avó, Fernanda, apoia-se nela com a moleza de um marinheiro a um mastro. Aquele olhar – de sobrolho um pouco levantado, com ecos de pio de coruja – manteve-o pela vida fora, recordo-o bem, e se aqui lhe dá um ar levemente misterioso, de facto pouco o era e na família próxima sugeria-se a sua pouca sagacidade na narrativa dos deslizes compatíveis a quem não se apercebia com grande acuidade do mundo em que se movia. Dela se contava uma história em que contracenava também o dono de um talho perto da casa dela, um sujeito bronco e intratável conhecido à boca pequena pelo “Caraças”. Pois a minha tia Fernanda, um dia em que a criada não o pôde, foi comprar carne e o tempo todo que esteve ao balcão a encomendar tratou repetidamente o açougueiro por “e queria também que me embrulhasse meia-dúzia de fêveras Sr. Caraças, das do cachaço” não se apercebendo do riso dos outros clientes nem do fumegar do homem! Em casa, a minha tia controlava os acontecimentos como só uma mulher sem filhos e com uma imaginação monolítica o consegue fazer e, dizia a minha mordaz mãe, que o meu tio Domingos, o definhante cônjuge, jazia tão à míngua de confortos gastronómicos que se refugiava no açúcar do xarope da tosse como consolo de sobremesa. Sim, lembro-me dele a tossicar ao canto das salas, a esfregar as mãos e sempre pronto para se levantar e seguir a minha tia no final das visitas.
“Domingos, veste o sobretudo e traz-me o casaco...”, dizia ela levantando o sobrolho em sua intenção. 
Já a adolescente, delicada e de traços finos, do laçarote viria a ter outro tipo de paixões. A minha avó Zaida tinha absoluto terror à água canalizada, que achava tão perigosa de ingerir como se fosse um veneno patenteado, pavor que provavelmente lhe vinha dos tempos pré-clorados em que a água transmitia perigosas doenças, como a cólera ou a febre tifoide. Se estivesse por perto nunca nos deixava beber água e, se forçada a admitir que estávamos demasiado esbaforidos, só da morna, da aquecida, e depois de passada no filtro de porcelana que existia na copa. Ah, o mundo, que lugar tão perigoso, assombrando a paz doméstica com bactérias invisíveis e coristas rechonchudas...
Quem diria, olhando apenas...? Duas rapariguinhas de olhares tão sonhadores, tão desprendidos, nelas podiam pousar as aves na segurança de quem dormita em mármores... E, ao centro, a minha bisavó naquele olhar alçado, entre o rendido e o revelado, de quem vê passar arcanjos.
© Fotografia: Foto Artística, Rua do Coronel Pacheco, Porto.

02 fevereiro 2015

PRESA POR TER CÃO...



“Agora é que eu desgracei a vida, Pedro”, disse, tão pronto atendi e percebeu que lhe reconhecera a voz.
“Tenha calma, de certeza que não pode ser assim tão mau...”, respondi, habituado aos superlativos com que enfeita o que lhe sucede. Margarida traz à lembrança, seja pelos alaranjados do penteado, o excesso de rímel nas pestanas ou a gama XXL dos gestos e das emoções, um personagem de Almodóvar, realizador por quem nutre grande estima e de quem, um Natal, me ofereceu um CD com uma antologia das bandas sonoras das suas películas.
“Desta vez é, Pedro, desta vez não tenho safa...”
Tentei indagar os contornos do problema, para poder injectar uns toques atenuantes, mas ela informou:
“Não lhe posso contar ao telefone, é demasiado grave; demasiado perigoso...”
Encontrei-me com ela dois dias depois, pela hora do almoço, no Colombo, perto da entrada da FNAC; sentámo-nos num banco ali perto, a conversa desenrolando-se ao nível dos joelhos de quem passava.
“Ai, Pedro, dei cabo da minha vida...”, desabafou, virada para mim, a carteira pousada no colo.
“Margarida...”, censurei com brandura, “quantas vezes já não esteve metida em alhadas? Lembra-se daquela vez em que me telefonou à uma da manhã...? E, diga, não se resolveram todas?”
“Estive presa três dias, Pedro, e não tardará muito que volte para Tires a cumprir três ou quatro anos...”
Mantive a boca fechada, a fachada impassível. Saiu-me, estrangulado, um:
“Mas acusada de quê?!”
“Incendiária...”, respondeu prontamente, como se já se tivesse habituado ao estigma.
Olhei para ela, esgazeado, sem conseguir ver na excelente pessoa que conhecia há mais de vinte anos uma bombista ou alguém que anda por aí a atear fogo a matas. E então, desfiando entre os dedos a pega da carteira, na impessoalidade da multidão, ela contou-me:
Apaixonara-se por um tipo, fora o que fora, durante muito tempo tudo  correra bem, talvez demasiado bem... Ele era um bom bocado mais novo, mas o que interessam essas coisas quando saltamos para os domínios do sonho? Passaram a morar juntos, em casa dela; estabelecera-se um elo de confiança suficiente para que lhe passasse para as mãos códigos de cartões, pormenores da conta bancária; escorregava-lhe dinheiro quando ele precisava, que a profissão dele era incerta, cheia de azares até à data, mas o que interessava? Quem tem tino para se dar conta desses detalhes quando se vive uma paixão, acesa como uma fornalha? Um ser humano assemelha-se mais a uma epidemia do que a uma folha Excel! Mas depois o cardápio foi-se modificando, insidiosamente, parecia-lhe; as meiguices e a proximidade – ela era inteligente, foi estabelecendo nexos de causalidade com o coração a desfazer-se em cinzas no peito – relacionavam-se com os períodos de aguda necessidade de dinheiro por parte dele... Quando era abastecido, o príncipe tornava-se distante, desaparecia temporadas, evitava até atender-lhe chamadas, respondia aos SMS de forma evasiva... E ela, com o coração a retumbar nos tímpanos, o pesadelo a fazê-la sentir-se mais irreal do que o sonho quebrado, começou a memorizar desconfianças, a acumular indícios que se foram transformando em quase certezas. Um dia seguiu o carro dele no carro dela, viu-o estacionar entre outros automóveis num bairro desconhecido, entrar para um prédio; era noite e uma luz acendeu-se numa janela, cá de fora via o que se passava, implodida num horror de traição e abandono. E a preencher aquele buraco subiu-lhe uma onda carmim de raiva que a empurrou para a acção. Sendo profissional de saúde, trazia no carro um frasco de álcool a 90 graus, esguichou todo o conteúdo no tejadilho do carro do filho da puta, Pedro, eu não estava em mim, via-me a fazer aquilo como se estivesse de fora, chegou-lhe um fósforo, fugiu, quase se ia espatifando ao volante sobre quem vinha em sentido contrário, encadeada por faróis que noutras noites seriam pacatos como luas num céu de Verão...
Mas, engaiolada no apartamento, Margarida não se aguentara muitas horas com aquilo entre mãos, foi, sem que ninguém lho pedisse ou aconselhasse, apresentar-se na polícia local, confessou o que tinha feito... o polícia atrás do balcão, que a conhecia e respeitava, atrapalhado com o que ouvia, a esferográfica a hesitar no registo como quem pergunta “tem a certeza do que está a dizer?”
E o problema não fora propriamente que o carro dele ardera, a chatice foi que o fogo, etéreo e veloz, se pegara aos carros entre os quais o outro estava estacionado: três automóveis pasto de chamas, todo aquele plástico e borracha a fumegar na calma da noite... um crime público.
“Dois a seis anos de prisão efectiva, Pedro, para além de ter de pagar todos os prejuízos... Estou feita!”
Eu concordava que era pesado, mas, que diabo, não ia ser tratada como um angariador de madeireiro, como um pirómano que se mija nas cuecas enquanto tira o isqueiro do bolso, os juízes haviam de estabelecer a diferença...
“Ai, não sei, Pedro, não sei... Olhe, sabe, quem me deu força e foi impecável comigo este tempo todo? As minhas colegas de cela em Tires – não diga nunca isto a ninguém, que vão julgar que estou louca – mas até que não foi uma experiência má de todo... Aprendi muito estes dias.
Quando nos despedimos, a luz já se tornara débil nas claraboias do centro comercial, abracei-a com força, pus-me à disposição para qualquer coisa em que pudesse ajudar.
“Se calhar até vou abusar de si: o advogado diz que vai ser bom apresentar algumas testemunhas abonatórias em tribunal...”
E assim sucedeu. Uns bons meses mais tarde, naquela calmaria com que a Justiça cobre de poeira e objectividade as atribulações humanas, recebi uma convocatória para me apresentar no tribunal de X, um dia, ao fim da manhã. Fui com o meu melhor ar de amigo de incendiária: casaco, calça com vinco, gravata. À entrada, nas escadas, fumando nervosamente, encontrei um grupo de gente que rodeava carinhosamente a arguida.
“Ai, Pedro”, saudou ela, “hoje é que vai ser, é hoje que se vai decidir tudo: a minha vida, se vou dentro ou não...”
Entrámos, fomo-nos aproximando da sala de audiência. O julgamento ia ser à porta fechada e o colectivo seria constituído por três juízes! E então, sem que ninguém mo indicasse, apercebi a presença encafuada do móbil do crime, que se encostava a um canto, olhando de soslaio o grupo ruidoso que acompanhava a sua paixão fraudulenta... Paixão! Bastou-me um olhar para perceber que Margarida fora vítima de um chuleco de subúrbio, um tipo novo, de ar sonso, daqueles para quem a vida será sempre um expediente, e que aguardava a vez de prestar declarações na companhia do papá e se mantinha o mais distante de nós que podia, pois a cobardia não o impedia de intuir que não seria bem recebido nem enganaria nunca ninguém, a não ser uma Margarida apaixonada.
As testemunhas começaram a ser chamadas e primeiro entrou o psiquiatra que a ré tinha arranjado, pois uma moldura do contexto psicológico fica sempre bem e nada como a ciência para vaselinar as gretas das falhas humanas. Logo a seguir chamaram por mim, talvez por consideração a ser o único a vir de tão longe.
A sala de audiências era sem janelas e as paredes eram forradas de madeira clara, pelo que a meia-dúzia de magistrados de negro contrastava ali como um bando de corvos num milheiral. Corteses, frios e atentos quiseram saber a minha relação com a arguida, há quanto tempo a conhecia, o que pensava de tudo aquilo, se achava que o acto em julgamento fora premeditado ou não... Respondi com o meu ar mais sensato, pausado, entre o profissional e o humanitário:
Sim, conhecia a arguida há mais de vinte anos, trabalhara amiúde com ela, era uma profissional cuidadosa, diligente, sensata; tínhamo-nos tornado amigos no decorrer disso tudo. Não, não sabia da história daquela paixão nem conhecia o senhor que fora o motivo próximo de tudo. Quanto à premeditação... claro que não, senhores doutores juízes, aquilo fora um momento puramente passional, daqueles em que uma pessoa vê tudo vermelho e quando se deu conta já espetou a faca no meio das costelas do filho da..., quero dizer, da vítima. E fazendo um gesto de mãos discreto e inclusivo afirmei para os autos com a sinceridade à flor da pele:
“Todos temos um limite e quando esse limite é excedido pelas condições a que nos sujeitam, todos nós reagimos como seres humanos feridos, não importa se somos médicos, engenheiros ou juízes...”
Margarida saiu de tudo aquilo como de um conto de fadas com um final feliz: pena suspensa por um ano, nada dos seus erros ficaria registado em lado nenhum (inclusive no seu perfil profissional) se não reincidisse durante o período de vigência da sentença. E é claro que ela não reincidiu: uma paixão tão incendiária não surge assim por dá cá aquela palha, durante longo tempo o terreno vai ficar coberto de cinza fria. E, depois, ao preço a que está o álcool etílico a 90 graus, os fósforos, as acendalhas...  
Durante anos, apesar de nos encontrarmos com regularidade, nenhum de nós voltou a falar no assunto, é precisar dar tempo a que a erva cresça sobre as sepulturas. Um dia, no final de uma sessão de trabalho conjunto, fui levar Margarida à boca do Metro: chovia e eu tinha guarda-chuva. Durante o trajecto, por entre poças e passeios escorregadios, ela meteu o braço no meu e sabendo que não precisaria de introdução ao que falava, desabafou:
“Sabe, Pedro, queria que soubesse que o meu luto está concluído: foi dos lutos mais bem resolvidos da minha vida! Não ficou ódio nem rancor, apenas uma aprendizagem e boas memórias de quem esteve comigo, inclusive das colegas dos três dias em Tires... Coitadas, algumas delas provavelmente ainda por lá penam...”
Fiquei a vê-la entrar na carruagem. Depois ela virou-se e, notando que eu ainda me conservava no cais, ergueu a mão e um sorriso num perfeito adeus.

© Primeira fotografia (de cima para baixo): Pedro Serrano, Grécia, 2014.