23 maio 2015

SE A PALMA NÃO É PEQUENA (a praga das palmeiras)

Já notaram o estado das palmeiras do nosso país? Quase concluo ser impossível não terem reparado, de tal modo o espectáculo é generalizado, despenteado e pungente. Por todo o lado, de Faro a Viana do Castelo, o olhar tropeça-nos em tocos sem ramos, em restos de árvore com as – uma vez majestosas – copas descaídas num desalento cor de mato seco onde outrora morava um verde brilhante e orgulhoso. Pobres árvores.
Tudo isto começou de sul para norte, graças a um escaravelho importado de África, via Madeira ao que ouço dizer. O escaravelho, um bicho voador de tamanho impressionante (será 5 ou 6 vezes maior do que o escaravelho da batata) e nitidamente um ser de outras paragens, põe os ovos numa toca que escava no topo da palmeira – a sua parte mais tenra e viva – e daí nascem umas larvas, enormes, com um ar tenebrosamente alienígena que se vão alimentando do miolo da árvore, transformando a polpa viva numa nojenta pasta alaranjada. Finalmente, as larvas preparam o seu sono de beleza envolvendo-se num casulo finamente tecido com fibra de palmeira, até estarem prontas para eclodir e se metamorfosearem no escaravelho de que falámos. E o ciclo repete-se, ao ritmo do declínio das palmeiras.
Em Espanha, o país organizou-se para enfrentar o problema e proteger as palmeiras, pois a praga é de potência e progressão assustadora: há organizações públicas que lidam com o assunto a nível regional e local, produz-se investigação operacional sobre o melhor modo de combater a praga. O que fazer para prevenir a contaminação? Como tratar uma árvore já infectada? Como lutar contra escaravelho e larvas? Quais são as soluções químicas e as abordagens biológicas possíveis?
Tenho em minha casa uma palmeira, uma única, comprada há cerca de vinte e cinco anos num vasinho, quando era uma planta pequenina com dois palmos de altura. E sob o meu olhar, o olhar do meu filho e de quem me visitava, a palmeira foi crescendo, tornou-se referência quando pretendo indicar onde moro: “é uma casa com uma palmeira grande, vai vê-la logo quando entrar na rua...” Sim, avista-se bem nos seus nove ou dez metros de altura, na sua pose de quem ninguém a arreda dali, uma imortalidade vegetal...
Mas um dia, ao fazer de carro o trajecto de Lisboa para casa, dei-me conta que ao longo do caminho era uma mortandade de palmeiras doentes, que na própria localidade onde moro, quase à esquina da minha rua, havia árvores atacadas, desfiguradas. Cá de baixo, num pescoço torcido e ansioso, estudei com atenção a minha palmeira, em busca de escaravelhos alaranjados, de palmas secas e descaídas... Não me parecia, assim à vista desarmada, que estivesse atacada; mas que percebia eu da saúde das palmeiras?
Palmeiras no Casino do Estoril (repare nos tubos ao longo do tronco).
Primeiro, dei por mim a falar sobre palmeiras com vizinhos e jardineiros das redondezas e o desnorteio era geral: ninguém sabia onde ir ou o que fazer; os jardineiros eram de opinião nada haver a fazer uma vez a palmeira atingida – só restava deixar o bicho roer todo o miolo do tronco e fazer um vaso artístico da parte sobrante... Procurei, depois, na internet e depressa cheguei à conclusão que não iria longe com as entidades oficiais: é certo que poderia entrar em contacto teórico com uma direcção regional qualquer da agricultura, uma daquelas repartições do Estado onde o telefone toca e ninguém nunca atende... Informações ao público, sobre aquele assunto, zero vírgula zero, como é costume. Quem raio se interessa pela merda das palmeiras? Restou-me um site de uma firma (de Cascais) que lidava com o assunto e que abordava e informava com bastante detalhe quem o resolvesse ler. A firma demonstrava também a sua experiência na matéria, ilustrando a obra feita com fotos de intervenções em vários locais, um deles no belo palmeiral que se planta fronteiro ao Casino do Estoril. Telefonei, a conversa foi afável, clara e esclarecedora: fiquei a perceber os passos a dar, que não iria lá com amadorismos, e que a coisa não sairia barata. Se a palmeira merecesse uma intervenção – primeiro era mandatório fazer um diagnóstico do seu estado de saúde – seria necessário tratá-la durante um ano, sem garantia total dos resultados, como acontece em qualquer doença humana grave. E, claro, havia as deslocações, que de Cascais até minha casa, na ida e na volta, são quase 200 km.
Suspirei fundo e decidi investir na palmeira como se investe num familiar que está doente e a gente quer ver melhorar... E os dois funcionários principais da firma lá apareceram no dia aprazado, uma manhã soalheira de inverno. Mal relanceou um olhar à árvore – que já pré-observara em fotografia que lhes enviara por mail – o homem confirmou a doença, fez-me notar os pormenores que, vistos cá de baixo, indiciavam o mal. O passo seguinte seria subir lá cima e avaliar a sua extensão. No começo da consulta as notícias foram más, a árvore estava muito infectada, comentava ele do cimo da escada, atirando, como demonstração, diversos casulos e pedaços alaranjados de uma papa nojenta, que não era mais do que a polpa da árvore depois de sugada e mastigada pelas larvas. Enraivecido, enquanto ele ia cortando ramos e pedaços de tronco com uma motosserra, dez metros mais abaixo eu esventrava entre as solas dos sapatos os casulos, observando os informes vermes acinzentados de focinho aguçado e negro, antes de os esmagar contra o asfalto da rua.
Casulo da larva.
Quase dois palmos de tronco foram limpos com a motosserra e o senhor Morgado anunciou que, dali para baixo, a árvore estava limpa e era ainda possível instituir um tratamento, pois o ponto vital ainda não fora atingido. O que queria eu fazer?
Umas duas horas mais tarde, já a hora do almoço roncava nos estômagos, o senhor Morgado deu por concluído o trabalho: fora feita uma limpeza cirúrgica da árvore, aplicado um duche químico no topo da palmeira e, nas escamas do tronco da árvore, tinham sido introduzidos profundamente três catéteres com uma tampinha azul à superfície, tubos por onde seria aplicada a quimioterapia, uma combinação de várias drogas cuja mistura iria variando todos os meses, de modo a potenciar o tratamento e evitar a resistência do bicho ao mesmo. Antes de regressar a Cascais, o senhor Morgado deixou-me uma atraente mala térmica cheia com os frascos dos produtos químicos a usar; contendo máscaras, luvas, seringas, todo o arsenal necessário a tratar a palmeira ao longo de um período de doze meses. Os resultados ir-se-iam vendo, o essencial era seguir as instruções e não deixar passar as datas da medicação. Ele estaria à disposição, por mail e telefone, para qualquer informação, mas achou-me suficientemente capaz para continuar a ministrar os cuidados à doente. Poderia regressar em qualquer altura, se preciso fosse, mas 200 km, vezes x era factor a ter em conta, achava ele, achava eu.
Isto foi em Janeiro e, religiosamente, todos os meses, no dia apropriado, eu e o meu amigo Ricardo vamos a casa do Luís António pedir a escada emprestada, uma grande escada, daquelas extensíveis, quase à bombeiro. Preparamos as mistelas em grandes baldes de plástico e, enviando-me constantes “segura bem na escada”, o Ricardo sobe os inúmeros degraus e, em prestações vertiginosas, vai despejando os 12 litros do duche químico no topo da palmeira. De vez em quando encontra um escaravelho moribundo, deitado de patas para o ar no topo da palmeira, que me atira, anunciando:
“Está aqui mais um filho da puta...”
Rhynchophorus ferrugineus.
Cá em baixo, os óculos embaciados pelo bafo de respiração solto por trás da máscara, parecendo um cientista louco de filme, com uma enorme seringa de 100 ml nas mãos enluvadas de azul, vou injectando no tronco paciente da palmeira a mistela química indicada para o mês de Maio. No final devolvemos a escada ao dono e, mal acabei de lavar e arrumar os apetrechos na garagem, já me está a chegar um mail com as fotografias que o Ricardo tirou lá em cima para monitorizar a progressão do estado vital da árvore. De imediato, as envio ao senhor Morgado que, na volta do correio, me exprime a sua satisfação pelos progressos: a palmeira está a safar-se e ele acha que, por este andar, em seis meses terei folhas com um metro de comprimento.    
Perguntarão os leitores: “Mas achas que todo este esforço, dinheiro, vai valer a pena? Um ano de tratamento, sem ter a certeza?!” 
Bem, meus amigos, as pragas do Egipto também não duraram para sempre...
Parte nova a crescer no topo da palmeira.
Como posso eu terminar – para não vos despachar com a frase do Fernando Pessoa sobre a dimensão da alma – senão com um elusivo “o futuro a Deus pertence”? Mesmo que seja o futuro de uma palmeira, criatura que, assim à partida, não está provado ter alma.



© Fotografias, de cima para baixo: (1) Pedro Serrano, Praia da Areia Branca, Abril 2015; (2) Pedro Serrano, Estoril, Março 2015; (3) Pedro Serrano, Fevereiro, 2015; (4) Ricardo Ventura, Março 2015; (5) Ricardo Ventura, Maio 2015.