02 abril 2011

And it stoned me


And it stoned me to my soul

  Van Morrison ("It Stoned Me")

A sensação que tenho sempre é que são elas que me encontram.
Não faço colecção de pedras, não faço o género colecionador. Mas há pedras tão especiais que as levo comigo para onde moro. Não é uma mania, é porque algumas, raras, de entre elas concentram em si uma beleza, uma suficiência, uma perfeição que me leva a pegar nelas e a levá-las.
Tenho em minha casa, espalhadas pelos locais onde acabam por fazer ninho e ficar bem, uma meia-dúzia. A mais antiga, encontrei-a na Noruega, na margem de um riacho de fiorde, rumorejando batida pela corrente, uma pedra de um verde profundo, sarapintada de pontos negros – faz lembrar, pela textura, pela macieza escorregadia e fria, pelo padrão, a pele lisa de um peixe sem escamas. Ocupa metade da palma da minha mão. 
Achei outra num chão recamado de pedras da mesma espécie, amareladas e polidas; esta era também amarelada e polida mas tinha uns veios avermelhados que assemelhavam as linhas de uma rede de Metro enlouquecida – arte moderna pura, achada na Serra da Leba, no sul de Angola, a uma altitude estonteante.
Depois há uma pequenina, redondinha, de um cinzento desmaiado, delicado e seco; não fora a aridez e poder-se-ia tomá-la por ovo de codorniz. Uma outra, marmórea, em forma de coração, não o coração das cartas de jogar, mas o anatómico – cabe na palma da mão. Já não sei onde me encontrou. E, finalmente, há aquela, extraordinária, que no meio tem uma depressão que imita de tal modo uma impressão digital que o meu polegar cabe lá dentro, inteiro, ajustado como se tivesse sido produzida por encomenda.
Hoje encontrei outra dessas, especiais. Caminhava, olhando em frente, sobre um chão vulcânico, visitava a Cidade Velha da ilha de Santiago, em Cabo Verde, onde as ruínas são do século XVI e as pedras naturais estão por ali há milhões de anos.
De repente, num chão onde havia milhares semelhantes, ela olhou-me, individualizou-se, eu fiz o costume quando isso me acontece. Inclinei-me, peguei-a com o cuidado de quem colhe uma flor, fechei a mão sobre ela e senti na palma da mão a passagem de força que este tipo de pedras sempre transmite.
A Teresa L. e a Isabel A., que me ladeavam no percurso, repararam de imediato na sua singularidade e beleza mal a mostrei, e de tal modo se sentiram incompletas que desataram a procurar gémeas pelas redondezas. Claro que não encontraram nada que as preenchesse, bem as avisei que estes acontecimentos são únicos e dirigidos a um só destinatário; a vez delas chegará noutro local, noutra ocasião. Esta encontrou-me a mim, segue comigo para onde eu vá. Poderei, durante umas breves temporadas contar a sua história; um dia estará por cá sem ter quem a explique, mas mantendo intactas as suas qualidades silenciosas. Sobrevivem-nos as pedras e a luz do sol. 

© Fotografias de Pedro Serrano, ilha de Santiago (Cabo Verde), Abril 2011.