21 abril 2011

Hoje há compaixão c/ todos




No degrau mais baixo da escada, da escala; no tom menor do denominador comum, há uma semelhança crassa entre todos os animais.
Não sei se já viram uma criança com uma desnutrição grave, provocada ou por não ter que comer ou porque o ambiente na barraca onde mora é tão negligente e desatinado que a deixam sem comer ou a alimentam de modo inconsequente em termos de quantidade, periodicidade e equilíbrio do que come?
De habitual, é uma criança com menos de dois anos (morrem antes de ter tempo de obter mais idade), pesando 4 ou 5 kg quando deviam pesar o triplo ou o quádruplo; o cabelo, originalmente negro, ganhou um tom avermelhado e quebradiço; a pele é seca, espetada por ossos, e, por toda ela, há feridas pequenas e circulares que parecem queimaduras de cigarro. Não são, são chagas que não curam, escarradas na pele por um sangue que não faz chegar oxigénio renovado suficiente, nutrientes suficientes. A criança bem tenta renovar-se, por isso a respiração é apressada e o peito, como um fole roto, no seu arfar chupa a pele entre as costelas
Mas, o mais impressionante desta crucificação lenta, é a atitude, é o olhar. São crianças que não choram se estendemos o estetoscópio para as auscultar, se lhes mexemos para as palpar: algumas gemem apenas e olham-nos com olhos apavorados – essas são as que estão no melhor desse pior estado. Outras exprimem no magoado do olhar o desconforto de estarem a ser perturbadas no seu direito a uma dor global e, finalmente, aquelas que morrerão em poucos dias miram-nos de um olhar fundo, indiferente, mais velho do que o mais espetado dos cristos, um olhar de onde se evaporou há muito a confiança, o brilho, o risonho da infância. Se é que alguma vez lá morou alguma dessas bênçãos.
Na ilha do Sal, os gatos que rondam as mesas dos restaurantes não se roçam nas pernas dos clientes – estão habituados a ser escorraçados; não miam alegremente para chamar a atenção das nossas migalhas – olham-nos com um olhar fixo, onde a angústia se mistura com a vigilância permanente de poderem ter de fugir para salvar a pele. Mesmo depois de se lhes atirar o primeiro nico do que comemos eles não sossegam e, quando estendemos o braço no balanço de uma segunda oferta, eles saltam para trás, assustados com o movimento. Já experimentaram o sabor de muita porrada à solta.
Os gatos do Sal são maioritariamente listrados, seriam bonitos não fora as costelas espetadas na pele, o pelo que lhes sobra e escorre da barriga como um tapete a secar numa corda; não fora a falta de brilho na pelagem e a ponta das orelhas corroídas por feridas que não saram e as moscas petiscam... E o olhar, aquele olhar onde não luz esperança em ninguém e o medo espreita.
Uma tarde quente e de céu azul, ao mudar-me da piscina para a esplanada do restaurante sobre a praia, ouvi um miar tão plangente que parei para ver de onde vinha e que aflição o provocaria.
Na esquina de uma das entradas para o restaurante, num pequeno canteiro, espetava-se um coqueiro e, a meio do seu tronco, um gato, em jeito de trepar por ali acima, miava, o pescoço virado no sentido do solo. Aproximei-me um pouco, espreitei. No chão, quase perdido nos chorões que atapetavam o canteiro, um minúsculo gatinho, olhava para cima, o corpo tremendo como varas verdes.
No tronco, a mãe continuava a miar para ele e ia subindo pelo coqueiro, como que incitando-o a fazer o mesmo. Mas o gatinho não se decidia, talvez, fosse demasiado pequeno ou demasiado fraco para o tentar. Desesperada, a mãe desceu o tronco, aproximou-se da cria, empurrou-o com o focinho. Tudo quanto conseguiu foi que o bichinho se metesse entre as suas pernas e desatasse a mamar uma barriga chupada de fome. Ela deixou-se estar uns minutos, voltou a escalar o tronco, miando à cria num tom plangente que parecia descrever as consequências de ele ficar em terra rasa: e os cães, que lhe chamariam um figo? E os outros gatos machos, que o despedaçariam por questões de clã? E os homens, que, com excepção das crianças, torciam o nariz a gatos em resorts?
“Trepa, inútil!”, parecia ela miar numa ansiedade que já me contagiava:
“Trepa, inútil...”, pensei.
E o gatinho lá acabou por saltar para o tronco, estatelando-se, logo a seguir, sobre os chorões; teimoso, voltou a tentar e, esgadanhando desajeitadamente o coqueiro, lá progrediu um esforçado metro. Satisfeita, a mãe subiu ainda mais no tronco e, chegada ao nível conveniente, saltou para o telhado adjacente, onde ficou a miar e a olhar para baixo, dizendo:
“É isto que eu quero que faças, inútil; aqui estás a salvo de todos os perigos...”
O gatinho manteve-se na árvore uns minutos, primeiro tentando trepar, depois, por muito cansado do esforço, acachapado numa imobilidade trémula. Por fim, voltou a cair na terra do canteiro.
“Inútil!”, rosnei para mim mesmo. E fomos comer.
Já sentado, enquanto esperávamos pela salada de polvo com pimentos e pela omeleta de cogumelos, roubei às entradas duas fatias de queijo de cabra e fui ver no que paravam as modas no coqueiro. Fiz a abordagem de muito próximo, pois apenas um murete separava a parede da entrada do restaurante do canteiro e quando a minha cabeça surgiu no cenário, a mãe-gata foi surpreendida pelo meu aparecimento súbito. Rápida como um raio, trepou o tronco até ao meu nível e brindou-me com um bufar assanhado como saudação.
“Está calada, estúpida de merda”, respondi, “não vês que te trago comida?”
Ela percebeu rapidamente, regressou ao chão e devorou em segundos os pedacitos de queijo que lhe ia lançando, não resistindo eu próprio a rilhar um  ou outro, tal o apetite dela estimulava o meu. Regressei à mesa.
Perto do fim da refeição, usando a mesma aproximação interna, regressei ao cenário do canteiro com um pedaço de omeleta e umas rodelas de polvo embrulhadas num guardanapo. Desta vez, ela não desatou a soprar como uma cobra enfurecida, limitou-se a olhar-me com aqueles olhos alucinados onde cabia toda a fé pela dureza do mundo.
Enquanto a mãe engolia os pedaços de polvo, o gatito, encostado a ela, mirava tudo, continuando a tremer como varas verdes nas duas da tarde escaldantes. Coitadito, era tão pequenino que ainda nem mastigar conseguia, era ainda um bichito de mama. Isto foi o que pensei até atirar o pedacito de omeleta, que, por má pontaria, caiu em frente ao focinhito minúsculo. O gatinho cheirou-o com todo o cuidado e, pressentindo que aquilo eram proteínas interessantes, desatou a mamar nos ovos como se fossem uma teta felina. Perto, em atenção total, a mãe deixou-o fossar, não esboçando a menor tentativa de lhe desviar a comida ou de a utilizar ela em proveito da sua fome pessoal. Finalmente, quando o gatito se fartou de mamar na matéria amarela, a mãe aproximou-se e engoliu o que restava.
Regressei á piscina, apliquei uma nova camada de protector solar, inclinei o chapéu de palha sobre os olhos, abri o Morrem Mais de Mágoa (do Saul Bellow) na página onde o tinha deixado e pensei que, talvez, todo aquele queijo, toda aquela omeleta, se volvessem rapidamente em leite e que o gatito pudesse, talvez, vir a conseguir o salto de meio metro que, subido o tronco, o separavam do telhado e, assim, sobreviver até amanhã.
Embalado neste pensamento reconfortante, adormeci com o livro pousado no colo.

© Fotografias de Pedro Serrano, ilha do Sal (Cabo Verde), 2011.