19 março 2015

NÃO VENHAS TARDE: 6. À SOMBRA DA BATEDEIRA ELÉCTRICA

Os efeitos da batedeira fizeram-se sentir por aproximadamente três dias, depois disso os sorrisos murcharam e acabaram-se os refrescos, a melancia, e as cigarettes com que fomos hospitaleiramente acolhidos em casa da família Joαηηoμ nessa primogénita manhã em Atenas. Sala de estar de estores subidos para nos receber e lá fora o dia, para já rosado como os cubos de melancia gelados que nos servem, anuncia-se quente. Para os visitantes os melhores copos do louceiro onde foi vertido uma espécie de mazagran frappé que nos revitalizou a dormência de uma noite mal amanhada. Uvas.
A mãe do Nikolas é uma senhora muito simpática e a total incapacidade em dizer uma para a caixa em inglês é submergida pela transbordante sensação que transmite de ser capaz de acolher num abraço o mundo inteiro, isto apesar da neurose de guerra de que sofre e a que todos se referem com naturalidade  – durante a segunda guerra mundial os gregos foram bem maltratados pelos alemães que ocuparam o país e tudo quanto era casa de família em Atenas, obrigando os proprietários a dormir na cozinha e a assumir o papel de seus criados. Quanto às mulheres da família estamos falados, pois as irmãs do Nikolas são bastante feiosas.  
O pai, por outro lado, tem uma loja de souvenirs no bairro Monastiriki, um local do centro antigo de Atenas que faz lembrar a Rua Cimo de Vila, no Porto, e acomoda uma feira-da-ladra permanente. É para aí que, já passava das nove da manhã, nos dirigimos, deixando as mochilas à guarda do ramo feminino dos Joαηηoμ. Na loja, atestada de azulejos e reproduções, com a costura do molde, do Discóbolo, da Vitória de Samotrácia, da Vénus de Milo, das Cariátides, expõem-se alguns outros objectos que estariam melhor nas redondezas do Vaticano. Mas a antiguidade também já foi há tanto tempo, quem irá dar conta ou queixar-se destas pequenas incongruências?
Depois de subida a porta de correr em chapa ondulada, o Sr. Joαηηoμ manda buscar-nos cadeiras e refrescos e ali ficámos os dois sentados a um canto da loja como se fossemos clientes especiais, sob a protecção das prateleiras onde deuses laureados e ninfas engrinaldadas se repetem no laranja e negro das urnas gregas.
A recepção triunfal não incluiu convite para dormir em casa dos novos amigos, pelo que, a nosso pedido, Nikolas se ofereceu para nos acompanhar a uma agência de estudantes, à procura de quarto. Achámos tudo muito caro e embora a quantia de 175 dracmas por pessoa (75 cêntimos, uns 7 euros por padrões de hoje) possa parecer ridícula, era forçoso que mantivéssemos o cinto apertado. Decidimos dormir ao ar livre e a decisão, juntamente com uns pés trucidados por um par de botas de cano alto e um clima acima dos trinta graus, contribuiu para que me arrastasse, descalço e deprimido, pelo cimento quente dos passeios de ruas que não se consegue perceber quais são, pois tudo está escrito nuns caracteres que nos fazem pasmar para as placas como para compêndios de matemática ou física! E, depois, quase ninguém fala inglês ou francês.
Desistimos de deambular num enorme jardim por trás do edifício do Parlamento onde adormecemos sobre a relva, ao sol, depois de lançarmos o I Ching. A pergunta “o que fazer: continuar já viagem ou manter-nos por aqui, a ver no que dá?” obteve como resposta um hexagrama que nos diz que o mais sensato é estarmos quietinhos. Assim ficámos, até que um polícia nos acordou e mandou mudar de poiso pois é proibido pisar a relva.
O sono dissipou as mágoas e acabámos a tarde a escrever postais para casa e para os amigos num pequeno café com vista para o templo de Hefesto, o que não deixa de ter alguma carga simbólica, pois, para além de deus do fogo e ferreiro dos deuses, Hefesto era manco, que é como eu estou à custa das bolhas que me abrasam os pés e coxeiam o andar. Mas agora não penso nisso, a frescura do chão de mosaico hidráulico do café é um bálsamo para a sola dos pés e o ambiente sossegado, em que o único som é o ruído das peças de dominó a serem movidas no mármore das mesas, potencia o efeito calmante. Ao fundo do cenário, sobre o enorme penhasco escalavrado, a Acrópole espera por nós, pois é aí que decidimos ir dormir esta noite.
Esta ideia romântica de nos acostarmos à protecção marmoreada e milenar do Partenon ou, quiçá, das colunas femininas do Erecteion, evaporou-se quando, esbaforidos, chegámos ao cume da colina pedregosa onde a Acrópole foi edificada: o acesso a tudo aquilo é negado por uma alta e sólida vedação em metal! Raios partam o progresso!
Não importa, ficaremos o mais próximo do que é humanamente possível da morada  dos antigos senhores de Atenas. Do lado de fora da vedação o terreno está plantado de pinheiros mansos e o chão atapetado de caruma. Estendemos os nossos sacos-camas e deitámo-nos na noite cálida, escutando o som da música e os ruídos amortecidos que  chegam da cidade lá em baixo. Fumámos um cigarro em silêncio e os olhos começam a pesar-me de bem-estar.

Curto repouso e encanto! Dois guardas, do lado de dentro da vedação, deram pela nossa presença e varrem-nos com potentes lanternas. Ficamos à espera de tudo: um tiro, prisão por vagabundagem, expulsão do país... Nada disso, foram-se sem dizer palavra. Voltaram pouco depois, repetiram a iluminação anterior e desapareceram. Acho que tinham decidido que não constituíamos perigo imediato para o património da humanidade e que nos podiam deixar dormir em paz. Mas dormir aqui é mais difícil do que o suposto, agora foram os mosquitos que nos descobriram. Tento esquecer o calor (os sacos-camas, tal como as botas e o kispo são quentes de mais para este clima), tento abstrair-me dos zumbidos: aqui não é como no meu quarto do Porto, onde podia levantar-me e colar mosquitos à parede numa guerra de almofadas!
© Fotografia de Pedro Serrano, Acrópole (Atenas), Grécia 2014.