30 novembro 2011
25 novembro 2011
23 novembro 2011
LUZ DO SOL
Afinal
Aquelas tais estrelas cintilantes
D’outrora
Não são mais que mica brilhante
Agora.
Recamavam o banco de granito
Onde me empoleirava a espreitar
A procissão oscilante sobre pétalas
D’outrora
E onde me sento a descansar
Agora,
Friorento, semicerrado e mole.
Sobrevivem-nos as pedras e
A luz do sol
© Fotografia: Pedro Serrano, Leipzig, Novembro 2011.
Classificação:
POEMAS
22 novembro 2011
Cantai uma canção nova ao Senhor*
| © Fotografia: Pedro Serrano, Leipzig, Novembro 2011. |
Sentada na fila à nossa frente, a
menininha da foto, mal o primeiro acorde do órgão se fez ouvir na imensa nave,
não teve hesitação em olhar para cima, à procura da fonte daquele som.
Lá no alto, naquele mesmo balcão, há
260 anos atrás, o homem que pedalava o instrumento dava pelo nome de João
Sebastião Bach e todas as semanas gostava de estrear naquela igreja, de que era
mestre-cantor, uma composição sua dedicada ao Senhor, pois era o modo de garantir
que lhe pagavam o ordenado ao fim do mês.
Quem mais lucrou com isso fomos todos nós, os que viemos a seguir, inclusive a menininha do
casaco vermelho.
*J.S. Bach: "Singet dem Herrn ein neues Lied", BWV 225.
Classificação:
LEIPZIG
12 novembro 2011
MARINA, MARINA!
Esganado de fome, ao avistar no
horizonte a área de serviço de Santarém virei-me para a minha acompanhante e
quase mais afirmei do que perguntei:
“Paramos aqui a comer qualquer merda?”
Ela acenou com a cabeça, eu apressei-me
a fazer pisca e desaguei na zona do restaurante.
Estranhará o leitor menos avisado que
tenha usado de linguagem tão desassombrada para com a senhora que seguia no
banco ao meu lado, mas tudo se harmonizará se revelar que a Carolina T. é
natural do Porto e não se choca com trivialidades. Em abono dela, posso ainda acrescentar
que é pessoa que abriga na mesma alma um coração de ouro e um humor com um
concentrado cáustico capaz de desincrustar a ferrugem de um submarino afundado
nas águas de Matosinhos há cem anos.
Nesse dia, viajávamos de Lisboa, onde
tínhamos estado a trabalhar a semana inteira, e como eu ia para o Porto, sendo
ela de lá, partimos em boa companhia, o estômago a dar a uma da tarde, a
ronronar, mas nós ignorando-o para não atrasarmos a saída e a chegada.
Após percorrermos o passeio dos
tristes em volta dos expositores do self-service entrámos de cotovelos em riste com os nossos tabuleiros na zona das mesas, o pescoço
esticado à procura de um local aprazível. Sentados, depois de uma fatia de broa
aviada com rapidez, alcancei então o apaziguamento gástrico que me possibilitou
circunvagar o meu olhar pela sala.
“Não olhe de repente, mas acho que
está ali o Zé, aquele juiz amigo do Carlos e da Isabel...”
“Quem?!”, perguntou ela, virando a
cabeça na direcção do meu olhar.
“O Zé, aquele amigo do Carlos que é
casado com a Marina. Sabe quem é, não sabe?”, insisti, pois a Carolina era
também visita regular da casa desses nossos amigos de Viana do Castelo.
“A Marina sou capaz de reconhecer”,
disse ela sorvendo uma colherada de sopa, “mas a ele acho que não; penso que só o
vi uma vez em Viana, e de raspão...”
“Pois acho que é ele que está ali, com
aquela senhora velhota”, continuei, mirando com insistência o tipo barbudo
e grisalho que, a duas mesas de distância, se afadigava com os talheres.
A Carolina, já de si personalidade
reflexiva, estava concentrada na refeição e mantinha-se monossilábica, deixando
largueza à minha tarefa de fixar o outro tipo, na procura de uma confirmação de
identidade, suposição que se foi robustecendo, pois, às tantas, pareceu-me que
o homem reparara em mim e me olhava com o mesmíssimo ar da pessoa que procura
folhear outra nas suas memórias.
“É de certeza ele”, transmiti à
Carolina, “a senhora é que não sei quem é; talvez a mãe... ou a sogra”.
Ela fitou-me com um olhar pouco
interessado.
Entretanto, na mesa do meu interesse,
o par dera por acabada a refeição e começava a levantar-se. Quando o vi em pé,
calmeirão, o leve ar de urso desorientado e bonacheirão, tive a certeza que era
o Zé da Marina e, à aproximação da nossa mesa, levantei-me célere e
atravessei-me no caminho.
“Olá”, saudei, “então por aqui?”,
cumprimentei, estendendo a mão ao Zé e dirigindo um aceno à senhora.
O tipo parou, apertou-me a mão, sorriu
com familiaridade; encetámos uma conversação sobre o tempo que ia tão mau, o
trânsito; o pararmos ali para comer qualquer coisa, encontrarmo-nos assim...
Sentada à mesa, despachando uma salada de frutas, a Carolina disfrutava a cena
com o interesse suficientemente disfarçado para lhe permitir observar mas não
ser chamada a participar na efusividade circundante.
E, finalmente, eu saquei a carta que
era necessário jogar, aquela que me permitiria cimentar em definitivo as
coincidência felizes daquele encontro:
“Então e a Marina...?”
O homem alvoroçou-se ao ouvir a
palavra, os olhos brilharam-lhe, estendeu umas significantes mãos na minha
direcção, e eu arquivei os meus 100 % de certeza de estar perante a pessoa
certa.
“Olhe que vamos agora mesmo para lá!”,
respondeu, “este mau tempo deu cabo do passadiço, desconjuntou uma série de
tábuas e vamos ver como é que ficou o barco, parece que até houve alguns que
ficaram a boiar, soltos pela marina!”
Despedi-me o mais rapidamente que me
foi possível do entusiasmo do desconhecido, evitando olhar a Carolina que, com
o recolhimento de quem acaba de regressar ao banco depois de tomar a hóstia
sagrada, tinha enterrado a cabeça no queixo na tentativa de adiar por mais uns
segundos a explosão de uma gargalhada.
© Fotografia de Pedro Serrano, Matosinhos, 2011.
Classificação:
ESBOÇOS e RETRATOS
10 novembro 2011
07 novembro 2011
05 novembro 2011
Sobre putas e vinho verde
Aos dezoito anos acreditava na
redenção das putas e nas virtudes da escrita automática, actividade que
praticava com três amigos numa mesa de sala de jantar ali perto da Rua da
Quinta Amarela. Em substância, todas essas putas eram vagas como a lua que, em meses
ímpares, cintilava no verniz da mesa.
Quando Aloísio lhe passou o bloco de
papel, para excitar o gatilho da sua contribuição na nova rodada de escrita
automática, leu a última linha que o amigo escrevera, depois a penúltima, e a
antes dessa...
Uma tarde de Verão indolente, abatida
sobre mim, que quedava espapaçado sob uma tília numa cadeira de convés,
contou-me como fora violada numa passagem de ano num pequeno hotel de Londres,
onde se entediava com a mãe e umas tias de província. Parece que o baterista da
banda que tocava na sala anexa ao hall, um tipo despenteado e com a barba por
fazer, já um pouco entrado nos anos e nos copos, a fitara toda a noite com
insistência. Depois, sem que ela soubesse como, bateram à porta do quarto, a
mãe já roncava no novo ano. Ele olhou com um ar descarado para a camisa de
noite dela, para o ar ensonado e as coxas nuas e disse que tinha um quarto no
andar de baixo, entre a recepção e a sala do pequeno-almoço. Ela (e achou na
altura que apenas por tédio) disse “espera aí” em inglês, foi vestir umas
calças e uma camisola por cima da camisa. A noite, contou-me, a boca enfiada na
minha orelha, os cabelos negros a comichar-me os cantos do nariz, fora uma
merda: o gajo estava incoerente dos copos, tratou-a com a brutalidade que
entendeu conveniente a uma concordância tão rápida, e uma primeira foda nunca é
nada de jeito, como toda a gente sabe mas ela não
sabia ainda. Tinha ficado muito traumatizada, confessou-me a coitadinha, puta
que a pariu e eu quase a pedi em casamento nessa tarde de Verão indolente sob a
tília.
As putas que ele imaginava, pelo
contrário, falavam pouco e moviam-se com o modo ausente de fantasmas, a cabeça
meio inclinada, como se ocultassem um segredo iluminante; todas carregavam
olhos angélicos e mãos de dedos finos cujos gestos ficavam gravados a preto e
branco na memória como um filme das fronteiras da nouvelle vague. Respondiam a nomes simples como Joana ou Maria,
havia uma estrangeira chamada Jeanne e uma canadiana sardenta chamada Marianne.
Moravam em apartamentos quase vazios, um colchão no chão, esquálidos
guarda-vestidos; nas noites invernosas rolos de cotão corriam pelo chão como as
bolas de ervas sem raiz que rolam nos filmes americanos. Insone, escutando o
vento nos estores, apanhava um livro dela do chão, onde ficara abandonado: eram
os Pensamentos, de Pascal, na versão
original francesa. Sim, podia ir longe com uma puta daquelas, ela podia até
redimi-lo de um futuro incerto e demasiado teórico.
Em silêncio passou o bloco a
Alexandre, levantou-se, foi espreitar pela vidraça. Lá fora, a chuva caía sem
parar, alaranjada como gasolina no tracejado de chuveiro em torno dos
candeeiros. Um carro passou, os passageiros embaciados fora de vista.
Apeteceu-lhe uma francesinha, olhou para trás. Alexandre terminara o seu
contributo, estendia o bloco a Álvaro; este fitou-o e, como se adivinhasse,
disse:
“Prepara-te, a seguir és outra vez tu,
André.”
© Fotografia de Pedro Serrano, Cabo Verde, Setembro 2011.
Classificação:
RUMINAÇÕES
01 novembro 2011
SERPENTINANDO
Dir-se-ia que a finalidade de tudo
estava concentrada em fazer mover pelo mundo aquela tira infindável de tecido.
A faixa tinha uma largura uniforme, mas os seus motivos mudavam a cada três
metros, ou por aí, como se fossem saris, capulanas ou outros panos estampados
costurados numa sucessão infinita.
Agora eu e X fazemos parte de uma fila
de gente que, em passo rápido, percorre uma estrada que ladeia um monte e
serpenteia até ao cume. Há gente que transporta a faixa á nossa frente, vemos
gente a empunhá-la nos braços estendidos nas curvas da estrada abaixo de nós. Aquela
serpentina sem fim dá forma a uma bela imagem, todas aquelas pessoas
contrastando em cor e movimento no verde luxuriante da montanha.
Fascinados, um tanto eufóricos com
toda aquela azáfama, X e eu desatámos a correr por ali acima com os nossos metros
de faixa, como se quiséssemos fazer levantar no céu um papagaio de papel, ultrapassando
o pedaço de fila que nos antecede e caminha ordeiramente em direcção ao cume.
Ao chegar ao cimo avistámos um enorme
edifício, envidraçado, parece-nos um centro comercial com mais luz do que o
habitual. Umas dezenas de metros antes de o alcançar somos interceptados por
alguém que é responsável pelo fluxo da marcha e nos diz:
“Então? Têm de ter calma! Já tivemos
de abrandar o passo dos outros para que isto não se ensarilhe tudo!”
E, de facto, as pessoas que no chão
cor de colorau da estrada se aproximam do edifício movem-se em câmara lenta,
algumas avançam um passo para logo o recuar.
Entrámos no hall do edifício com os
nossos pedaços de faixa bem esticados expostos nos braços. Uma rapariga morena,
de cabelo encaracolado e húmido, dá mostras de estar ali para preferir,
naqueles km de pano estampado, o meu pedaço. Estendo-o na direcção dela, ela dá
um passo atrás.
“Não faças isso”, segreda-me X. “Assim
os outros vão pressentir que ela quer o teu bocado, vão antecipar-se e
roubar-lho...”
Encolho o gesto até passar ao lado
dela, chegar a sua vez, e ela abrir os braços para tomar o meu pano. O meu
pedaço, reparo agora, ostenta um padrão xadrez, uma combinação de cores em
vermelho e negro.
“Tenho em casa uma mala de viagem, em
napa, que condiz mesmo bem com o seu pano”, digo quando ela começa a envolver
na cintura o pedaço de faixa quadriculado.
© Fotografia de Pedro Serrano, Porto 2011.
Classificação:
SONHO
31 outubro 2011
RI MELHOR QUEM RI IMPUNE
Tem alguém de quem se quer vingar,
alguém que o ameaça ou, simplesmente, alguém que o irrita? Então, porque não
considera a hipótese de se ver livre dele(a) de uma forma definitiva?
Uma conhecida personagem pública
portuguesa, homem muito dado à religião e figura maior na política portuguesa
dos anos 80, demonstrou, brilhante e recentemente,
como proceder com sucesso em situações deste género. Antes de aconselhar a
receita, exponho aqui, em frugal dúzia de linhas, o contexto do que se passou
com ele e com o seu problema particular.
Domingos Duarte Lima é advogado e, por
via das suas relações profissionais conseguiu que uma velha dama portuguesa
residente no Brasil, viúva informal de um senhor riquíssimo, depositasse numa
conta Suíça de que o homem é titular, a irrisória quantia de cinco milhões de
euros. Mas as relações entre ambos complicaram-se, a senhora exigiu a devolução
do dinheiro e, esse foi o seu mal, ameaçou o causídico de que tornaria os
factos, bem como os meandros do negócio, públicos.
A polícia brasileira que, tudo leva a
crer, levou a cabo uma investigação consistente e pormenorizada, concluiu que o
Dr. Lima viajou até ao Brasil, a convenceu a dar uma volta pelas redondezas e
lhe enfiou três tiros nocturnos, deixando-a a boiar numa poça de água e lama. Após
a proeza, o nosso herói, homem que conhece as leis portuguesas como as suas
mãos, regressou de imediato à pátria.
Agora que a investigação está
concluída e documentada, o Dr. Lima é o único suspeito do homicídio e o Brasil
gostaria que o senhor fosse extraditado para o julgar convenientemente e o
presentar com uma pena de prisão que rondará os 30 anos. Acontece que Portugal
não tem acordo de extradição com o Brasil, pelo que o presumível homicida ficará
deste lado do mar, para ser julgado pensaríamos nós. Mas não, a lei portuguesa
não se obriga a tal e, tendo em conta a dificuldade em reconstituir por cá o
que por lá se passou, o mais certo é o processo não dar em nada, isto é, o
homem não será condenado ou a probabilidade de o ser é ínfima. No entanto, precavida,
a nossa preciosa Justiça pensou em tudo e prevê, no quadro penal, uma hipótese em
que o presumível assassino pode ser engavetado numa prisão portuguesa, com
certeza com vistas e amenidades mais confortáveis do que as congéneres
brasileiras. Segundo essa alternativa, a justiça portuguesa poderá analisar o
caso, talvez condenar o homicida a pena de prisão efectiva e se este der o seu acordo será então aferrolhado
numa cela.
Saiba, então, cara(o) ouvinte, como proceder
em caso de ter alguém que o incomoda: escolha um país sem acordo de extradição
com Portugal (o Brasil é destino muito prático, tendo em consideração a língua
e o clima), convença a sua vítima a ir até lá, enfie-lhe um tiro entre os olhos
(um lugar bastante seguro em termos de resultados) e regresse a Portugal no
primeiro voo.
Depois, é só aguardar com toda a calma,
evitar viajar para países onde os mandatos internacionais de extradição com o
Brasil estejam em vigor, e, claro, negar sempre tudo. No final, o pior que lhe
pode acontecer é perguntarem-lhe se consente em ir preso. Se sentir alguma
tentação em responder “sim” consulte antes o seu psiquiatra.
Nota: “Ri melhor quem ri impune” é frase de fecho da canção “Profissionalismo é isso aí” de João Bosco e Aldir
Blanc.
© Fotografia de Pedro Serrano, 2011.
Classificação:
SOCIEDADE
30 outubro 2011
VOU-TE CONTAR: 43. A mosca e o hipopótamo
Estou sentado, de pernas cruzadas, no
tapete da sala da casa mais antiga. A porta que dá para o quintal está aberta,
lá de fora chegam cantos de pássaros, uma luz amortecida de outono. Estou a ler
o Tintim no Congo, numa parte de
imenso suspense que tem a ver com um hipopótamo. Uma mosca pousou-me na perna,
é a sexta vez que o faz nos últimos cinco minutos e é sempre a mesma mosca, sei
porque a tenho controlado pelo canto do olho. Pousa-me na parte de coxa livre,
entre a bainha da perna dos calções e o joelho, eu abano a perna, ela voa e
pousa no abat-jour de metal em feitio de chapéu de chinês sob o qual a minha
mãe mexe a agulha sem parança, como se regesse uma orquestra; volta à minha
perna, sacudo-a, ela levanta voo e aterra no caixilho inferior do vidro da
janela, fica ali a passear na massa de vidraceiro do rebordo e regressa à minha
coxa, pousa sempre no mesmo pedaço de pele.
Agora estou preparado, encostei o
Tintim devagar contra o colo, tenho o corpo teso, a atenção focada e a mão
pronta, semifechada numa garra em forma de concha. Tem-me chateado tanto que
não a vou esmagar logo com uma palmada; reservo-lhe outra sorte.
Pousou; deixo-a passarinhar um pouco
pela pele, para que se convença que está segura. Lá está ela, toda contente, a
esfregar a cabeça entre as patas, se eu fizesse o mesmo com a força com que ela
o faz a minha cabeça decerto rolaria pelo chão.
Fíchetttt! Com um movimento rápido
apanhei-a na concha da mão, ela zune lá dentro, aprisionada. Afasto, quase nada,
dois dedos, de modo a criar um pequeno espaço: cai na esparrela, tenta
escapar-se por ali. Agora está encravada, pinço-a com a outra mão. Arranco-lhe
primeiro uma asa e depois a outra, a seguir ponho-a no chão de tacos encerados.
Sem asas parece outro bicho, fica ali a andar sem rumo, meio aos bordos, pouco
confortável na nova situação de animal terreno, à mercê de todos que lhe
queiram mal. Agora, qualquer manada de formigas a pode cercar e arrastar para o
formigueiro, qualquer gato lhe pode dar umas patadas e trincadelas; eu mesmo, a
qualquer segundo que me apeteça, posso encher-me de a ver para ali a zunir e a
rodar sobre si própria como uma estúpida e dar-lhe com o livro do Tintim, ou
esmagá-la com a sola da sandália.
“Que foi?”, perguntou a minha mãe
levantando a cabeça do tricot.
“Nada”, respondi, “era uma mosca a
chatear...”
“Assim dás cabo do livro...”, disse
ela, aproveitando logo para fazer a sua pedagogia livreira, “olha que os livros
são o nosso melhor amigo...”
“Eu sei”, respondi abrindo o livro
onde ia.
© Fotografia: Pedro Serrano, Outubro 2011.
Classificação:
VOU-TE CONTAR
26 outubro 2011
VOU-TE CONTAR: 42. Dá-me lume
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| Da esquerda para a direita: eu, Augusto. |
Este Alberto dos Olivais era homem que
o meu pai respeitava e deste modo eu tinha carta branca para frequentar a sua
casa, vagabundear livremente pelos campos e matas com o filho dele desde que
prometesse não me aproximar de poços e das extintas bocas de minas do volfrâmio.
O Augusto era o filho mais novo, o outro filho chamava-se Hermínio e havia
também um rafeiro cruzado de perdigueiro, amarelado, que respondia ao
chamamento de Raboto por lhe terem
cortado a cauda, de modo que o bicho, quando me via chegar, mostrava o seu
contentamento abanando o toco remanescente.
Em casa do Alberto dos Olivais tomei
contacto com um estilo de vida muito
diferente do que estava habituado. Faz parte das minhas memórias mais vincadas
um almoço em casa deles em que nós os cinco (pai, mãe, os dois irmãos e eu, o
convidado) abancados a uma mesa nos achámos perante uma bacia de folha onde
luzia, fumegante, um cozinhado de carne de porco, feijão e couves. Não havia
pratos, cada um contava apenas com um garfo para picar o que tinha à sua
frente. Recordo a leve sensação de repulsa inicial, misturada ao não saber como
proceder em termos de etiqueta alimentar. No ganhar de coragem, atrasei-me um
pouco, observei como os outros faziam e espetei o garfo no intervalo que me
cabia naquela azáfama. Que bom, que fantasticamente saborosas aquelas tiras de
entrecosto, de focinho e orelha de porco cozidas com feijão e couves, não mais
voltei a comer igual. Não mais, também, o Augusto me voltou a encarar como
quando éramos pequenos e fazíamos barquinhos com casca de pinheiro gentilmente
escavada, chegou mesmo, para desgosto meu, a passar a tratar-me por “senhor
doutor”; o tempo destrói toda a ilusão.
![]() |
| Da direita para a esquerda: Augusto, eu. |
Com o Augusto, entre os dez e os doze
anos, antes de começar a levar os meus próprios amigos urbanos para a casa de
quinta que fora a dos meus avós paternos, aprendi muitas coisas: a caçar
escorpiões e sardões; a fazer canas de pesca e a não-pescar nada na ribeira da
Levada; a apanhar rãs e a soprar-lhes ar na cloaca com uma palhinha de modo a
que não conseguissem mergulhar e fugir; a cagar no meio dos campos e a limpar o
cu a folhas de videira; a fazer cachimbos com nós de cana seca e a atafulhá-los
com barbas de milho, escondidos no meio dos milheirais, um fio acre de fumo
branco denunciando a nossa presença. Só nunca consegui mover-me tão bem
descalço como ele nem a dar palmadas no lombo das vacas com tanta descontração.
De tudo o que aprendi e partilhei com
ele, o que relembro com mais nitidez são as nossas caçadas aos escorpiões,
conhecidos como licranços ou alacraus na terra do meu pai. Ele sabia
a técnica, eu lia coisas sobre esses artrópodes aracnídeos em livros da
colecção Verbo e deste
entrecruzamento entre teoria e prática cresceu a nossa sabedoria no assunto.
Setembro, o longo mês que passávamos
na nossa casa de Queirã, era ainda um bom mês para escorpiões (Buthus occitanus), pois os dias eram
quentes e soalheiros e os lacraus preferem o sol. Constroem as tocas, de
entrada rectangular, ao contrário da circularidade preferida pela maior parte
dos animais, debaixo de pedras batidas pelo sol, não se encontram escorpiões em
locais húmidos e soturnos.
Caçávamo-los às horas de torreira pelas
pedras que ladeavam o caminho que na Levada conduz à ribeira que, fresca e
gorgolejante, atravessava sob a azenha e dividia a zona de pinheiral das terras
de cultivo de milho e da plantação de choupos.
De cócoras, em frente a uma fenda
rectangular escavada onde o pedregulho tocava o chão do caminho, pousávamos
cuidadosamente o frasco de vidro, o pauzito descascado de pinheiro e o raminho
de giesta, os únicos artefactos técnicos necessários ao aprisionamento daquele bravo
animal que, apesar do tamanho diminuto (o comprimento de um dedo indicador),
era tão temível no ataque que uma picadela sua bastava para liquidar animais
pequenos e deixar a gemer de dor durante vários dias o adulto mais afoito e
descuidado.
A primeira etapa da caçada consiste em
virar a pedra sob a qual se poderá acoitar o escorpião e isso já exige alguma
sabedoria, pois o acto deve ser praticado usando um pau ou um pé bem calçado. A
imprudência de o tentar fazer enfiando os dedos próximos da base da pedra pode
ser a morte do artista, pois, a existir ali um lacrau, ele estará tão tenso
como nós perante o que o aguarda.
E era sempre com a garganta seca, o
coração a martelar nos ouvidos, que virávamos o calhau e dávamos um preventivo
salto atrás.
Descoberto, o animal avançava para
fora da toca de rabo espetado no ar, na extremidade do qual, na ponta de uma
ampola mais escura do que o amarelo torrada-com-manteiga do corpo, chispava, encurvado, o
temível ferrão, pronto a dar uma estocada na primeira coisa que se chegasse. Ao
mesmo tempo que assumia esta pose agressivamente defensiva, o lacrau tentava ir
andando para outras paragens mais seguras e a coberto, pelo que era preciso ser
rápido e começar por travar-lhe a fuga desde logo. Faziamo-lo usando a pauzito
de pinheiro com que se comprimia levemente a cabeça de caranguejo do animal.
Ele ali ficava, preso e furioso, tentando abocanhar o pau com as pinças e
desferindo o ferrão na madeira. Entretanto, já eu, ou o Augusto, tinha laçado
um nó corrediço na haste da giesta, argola na qual tentávamos aprisionar a
cauda erecta do escorpião. Conseguido isto, mais fácil de escrever do que de
fazer tal o trémulo que nos acometia, era só apertar o nó, suspender o animal
no ar, metê-lo cuidadosamente no frasco e aferrolhar a tampa com um suspiro de
alívio.
Então, e só então, era lícito e seguro
olhar o bicho de perto, através da transparência segura da espessura do vidro.
Regressados a casa, subia as escadas a
correr em direcção ao quarto de banho, enquanto o Augusto ficava acocorado no
terreiro a vigiar a presa vitrificada. Mas o frasco de álcool etílico estava
quase vazio, de tanto ser usado para embalsamar bicharada, e só nos restava a
alternativa de encher a prisão de vidro com aguardente, produto conservante que
havia às dezenas de litro na adega por baixo da casa.
E lá se ia o bicho desta para melhor,
entre o emborrachado e o afogado, contorcendo-se no estertor, mas não tanto
como aquele outro parente seu que, para tentarmos confirmar a teoria de
que escorpião aprisionado em anel de
fogo se suicida enterrando o ferrão em si próprio, morreu carbonizado ao tentar
atravessar o círculo flamejante que eu e o Augusto laboriosamente tínhamos
construído sob o olhar curioso e sadicamente divertido do meu pai que, por trás
de nós, nos ia picando:
“Vejam lá onde põe as manápulas, se as
encostam ao bicho quem fica a arder são vocês!”
Fotografias, de cima para baixo: (1) e
(2) Queirã, Eduardo Serrano, 1965; (3) blog Geocaching;
(4) blog Planeta Vida.
Classificação:
VOU-TE CONTAR
23 outubro 2011
MEA CULPA, MEA CULPA
Agora que Muamar Kadafi levou, literalmente, um tiro nos cornos, erguem-se piedosas vozes institucionais clamando por um rigoroso inquérito que determine se o tipo morreu do tiro na cabeça ou antes de um tiro no abdómen, quem o poderá ter matado e outras trivialidades inúteis do género e do costume.
Pessoalmente falando, acho que a morte do homem foi perfeitamente justa e harmónica tendo em conta o passado que lhe conhecemos: Kadafi morreu como um rato, tentando esconder-se num tubo de esgoto e quem o matou foi alguém que não quis perder uma tão grande oportunidade.
Pessoalmente falando, acho que a morte do homem foi perfeitamente justa e harmónica tendo em conta o passado que lhe conhecemos: Kadafi morreu como um rato, tentando esconder-se num tubo de esgoto e quem o matou foi alguém que não quis perder uma tão grande oportunidade.
A exposição, um pedaço de carne a que se tira fotografias como um souvenir, não é um espectáculo muito composto, mas convenhamos que, ao menos, ele não sente nada e o mesmo não pode ser dito dos milhares a quem torturou e matou.
Assim sendo, não gastemos cera com tão ruim defunto e deixemos os líbios venderem o seu petróleo em paz.
© Fotografia: Pedro Serrano, Lisboa, Julho 2011.
Classificação:
RUMINAÇÕES
20 outubro 2011
VOU-TE CONTAR: 41. Bodas de diamante
Os meus pais casaram-se na Capelinha das Aparições, em Fátima. Isto
passou-se em 1949, pouco mais de trinta anos depois de a Virgem ter feito a sua
azinhagem ali mesmo, pelo que o local estava ainda cheio de magnetismo.
Ao casamento assistiram os pais da noiva
e, como o noivo já não tinha pais que se vissem, a irmã mais velha do meu pai e
o respectivo marido. Não houve boda e os recém-casados seguiram directamente
para uma lua de mel no Algarve.
A versão oficial, vendida nas décadas
seguintes, para uma tal esqualidez de cerimónia devia-se ao facto de o noivo
não ter pais vivos, mas eu nunca comprei muito a teoria. Apesar de órfão, o meu
pai tinha dez irmãos e parentela suficiente para encher uma igreja e ensombrar
os dourados e cristais das salas do casarão dos meus avós no Porto.
Repare-se na cara de toda a gente na
fotografia: o preto e branco não explica o congelado de tanta sisudez, à qual
apenas escapam o sorriso deslavado da minha mãe e o ar confiante da expressão
do meu tio Augusto. Pelo contrário, a disposição do meu avô Heitor não se
poderia querer mais saturnina. Aquilo não era, deduzo, coisa que lhe agradasse.
A minha mãe, repare-se, era, à época,
uma jovem princesa, filha de banqueiro, com todas as prendas e predicados
necessários a um bom casamento, era até bonita e falava francês. E o que lhe
calhou na rifa foi um tipo dez anos mais velho, um pelintra chegado de um cu de
judas onde andava tudo descalço e as ruas eram atapetados com tojo e merda de
quadrúpede; um fiancé que para se acabar
de licenciar em Medicina tivera de andar a esgravatar nas minas de volfrâmio
durante a segunda grande guerra. Praticamente sem ter onde cair morto e, mais
grave ainda, sem antecedentes que se vissem ou se pudessem encontrar nas
páginas de alguma obra heráldica da extensa biblioteca da casa dos meus avós
maternos, na pavimentada cidade do Porto. O noivo tinha, no entanto, duas
qualidades que talvez não brilhassem muito aos olhos de pai cauteloso do meu
avô Heitor: inteligência e uma força de vontade de ferro, como as décadas
seguintes não cansariam de demonstrar.
Sem mãe desde a infância, com um pai
que o ia visitar ao seminário sobretudo para encomendar paletes de missas pelas
almas dos fiéis defuntos, o meu pai teve de crescer depressa e praticamente
sozinho. Quem, perante os seus olhos, funcionou como figura materna
foi a minha tia Céu, a irmã mais velha que lhe serviu de madrinha no casamento.
Essa minha tia morava em Viseu com o marido, professor primário de profissão
mas músico de coração. O meu tio Augusto era um daqueles seres de alma pura, a
sua simples presença física despertava um respeito carinhoso em quem estava por
perto e os meus pais eram-lhe gratos e devotados.
Nos anos 50, era tão pequeno que nem
disso me lembro, a filha mais velha deles, a minha prima Natalinha, viveu na
nossa casa mais antiga enquanto se licenciava em Matemáticas. Foi durante o
curso que conheceu na universidade aquele que viria a ser o seu marido para uma
vida inteira, um engenheiro electrotécnico de porte reservado e perfil
aristocrático e que, por feliz coincidência, se chamava também Augusto como o futuro
sogro.
De modo que se pode dizer que a minha
prima Natalinha e o meu primo Augusto casaram da nossa casa e, logo, rápido, a
vida levou-os para morar em Lisboa, onde fizeram a vida. Das primeira visitas
que lhes fizemos já me lembro vagamente: moravam num pequeno apartamento
em Queluz e uma vez por ano ou assim lá íamos nós ao Jardim Zoológico, ver os
Jerónimos e os Paços de Sintra, ficando alojados em casa da Natalinha, pois
amor com amor se pagava.
Depois, a vida dos meus pais melhorou
economicamente, a da Natalinha e do Augusto também; eles tiveram três filhos e mudaram-se
para um solarengo e enorme andar nos Olivais e nós, nas visitas seguintes a
Lisboa, passámos a ficar instalados no hotel Liz, ali na avenida da Liberdade. Nesses
dias, Lisboa parecia-me muito mais moderna do que o Porto e era fascinado pelos
hors d’ouvre das refeições no hotel e
pelas fotografias a cores dos combinados
que encimavam os balcões dos restaurantes lisboetas e que me apetecia
experimentar todos, começando no n.º 1 (carne assada, ovo cozido, salada-russa
e pickles), indo por ali fora até ao final da ementa plastificada.
Adolescente, quis aventurar-me pelo mundo e Lisboa era, aos catorze anos, o lugar mais longínquo
e exótico a que me deixavam ir sozinho. Mas os meus desvarios diurnos eram
sempre enquadrados por um regresso ao andar dos Olivais da Natalinha, onde
tinha de regressar a uma hora que me permitisse estar sentado com eles à hora
do jantar, olhando com um ar invisivelmente irónico as rezas que
antecediam a sopa.
Ah, mas durante a tarde podia vaguear
como quisesse pela cidade e percorria a avenida de Londres com o similar
inebriamento que outrem pode sentir ao olhar as montras da 5.ª Avenida, em Nova
York, e por aí comprei, na discoteca Sinfonia, as mãos trémulas de reverência, a minha cópia do recém-saído Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band,
um disco ainda impossível de encontrar no Porto.
Não penso que a Natalinha e o Augusto,
formatados na música italiana e francesa dos anos 50 dos seus tempos de namoro,
apreciassem muito o destempero dos Beatles, mas nunca se queixaram dos decibéis
ou de eu lhes ter gasto a agulha de diamante do gira-discos de tanto ter rodado o vinil na hospitalidade sulista do seu andar nos Olivais.
© Fotografias: fotógrafos desconhecidos; (1) Fátima; (2) local desconhecido; 1949.
Classificação:
VOU-TE CONTAR
15 outubro 2011
O PAI DO NOIVO
Quem, vindo de Coimbra, chega a Viseu,
entra na cidade por uma avenida ladeada de tílias que, infere-se pelo porte,
estão ali há longas décadas.
Por boa parte das minhas costelas
terem origem na zona, frequento a cidade há tempo suficiente para me ter sido
possível observar aquelas árvores crescerem e altearem-se no céu, acabando por ocultá-lo
e transformando a alameda num frondoso túnel que, no começo do Verão, derrama
sobre os passantes uma fragrância doce que enche os pulmões e tão logo a alma
de uma balsâmica sensação. Mas nem todas as evocações daquele dossel arbóreo
são tão harmónicas como quando, na última semana do passado mês de Setembro,
guiei sob elas de janelas abertas a caminho do centro da cidade e do hotel Grão
Vasco.
Dozes anos antes, num sombrio e gelado
Outubro, descera aquela mesma avenida com o coração apertado, sem olhos para reparar
na coloração que se amarelava nas folhas das tílias e na aragem cortante que
estremecia as copas.
Nesse dia, depois de um telefonema na
madrugada, rumei a Viseu para o velório e o funeral de uma amiga, ela própria
mulher de um grande amigo, uma daquelas relações que se põe em marcha,
insidiosa e incipiente, por razões de proximidade profissional mas que o tempo
– e os momentos bons, maus e difíceis que sempre traz consigo – transformara em
laços que pouco se distinguem dos de sangue.
A Judite era uma mulher ainda nova, um
cancro, que parecia curado pelos sete anos de acalmia com que nos seduzira,
deixou dois rapazes órfãos e um viúvo inconsolável, tão desamparado que fez arrepiar
os amigos, de preocupação e impotência, perante aquela ferida que não ganhava
bordos de cicatriz, perante aquela vida que parecia ter perdido o sentido. E
Viseu, uma cidade tão benévola, ganhou contornos de canto tristonho, a própria
avenida das tílias se volveu num passeio acabrunhado as vezes que por ali
voltei a passar, as recordações daquele Outono gelado estremecendo-me a memória.
Os anos passaram e no interior deles
vi o meu amigo Zé expandir-se do pai extremoso que sempre fora para contornos maternais,
num desdobramento que acarinhasse e protegesse o crescimento dos dois filhos,
um deles adolescente quando a mãe morreu, o outro, mais novo, forçado a
encerrar uma infância à pressa.
Este Setembro (ano da Graça de
2011), Filipe, o filho mais novo do meu amigo Zé, ia-se casar com Isabel, a sua namorada
de sempre, uma paixão que se acendera aos catorze anos no recreio do liceu (ali
mesmo, ao lado da avenida das tílias) e os convites foram expedidos com uma
antecedência que quadrava bem com o espírito metódico do pai do noivo e com a
sua vontade em fazer do casamento um acontecimento inesquecível, motivos que só
compreendi em todo o seu alcance no próprio dia da cerimónia.
A igreja do Carmo é uma das mais
centrais e requisitadas igrejas de Viseu e a sua riqueza interior de talha
dourada e azulejaria anil é tão bem combinada que ali, ao contrário de outras
igrejas, não é necessário andar a ocultar as imperfeições ou a insipidez do
cenário com os disfarces de arranjos florais profusos e esmagadores.
Sendo muitos os convidados, mais de
três centenas, a igreja encheu-se ainda antes de tudo começar e, na coxia de
uma fila bem situada, eu e a Ana observávamos tudo com uma atenção fresca.
Senti uma primeira emoção quando o Hallelujah (do moteto "Exultate
Jubilate"), de Mozart, se elevou no ar, cantado por uma voz feminina que
se erguia perfeita nas alturas. Mas a impressão passou e continuei, entre o
divertido e o surpreendido, entretido a observar as crianças brincarem, para
grande nervosismo social dos pais, sobre a passadeira vermelha por onde a noiva,
bonita no seu vestido escamado de sereia e afivelando um sorriso tenso, passara
há pouco pelo braço do pai.
A minha atenção foi de novo requerida
ao altar quando vi o Zé subir as escadas. A princípio, não muito conhecedor da
sequência da liturgia, ainda pensei que fosse ler uma daquelas passagens tipo:
“Naquele tempo, disse Jesus aos
Coríntios...”
Mas não, o homem alisara um papel sob o
microfone e começou a ouvir-se aquilo que era um discurso cuidadosamente preparado.
Tendo em consideração o emotivo que pode ser o meu amigo, e ainda mais agarrado
à forma do que ao conteúdo, debrucei-me para Ana, segredei:
“Oxalá ele se aguente até ao fim...”
Mas, às tantas, quem não se aguentou
fui eu! O discurso do Zé era um misto de celebração da felicidade que representava
para ele o ter-se chegado àquele momento, entremeava alguns conselhos e desejos
para o novo casal e terminou relembrando todos os que foram pilares naquelas duas
vidas que ali se juntavam, nomeadamente a mãe do noivo que, decerto, muito gostaria de
ter estado presente no casamento do seu benjamim.
Assim, na falta de aviso de
recepção com que estas coisas sempre atacam, vi desfilar nos meus olhos
interiores aquelas duas dezenas e meia de anos que se tinham passado e
as lágrimas que me encheram os olhos, a comoção que me estrangulou ainda mais
que o colarinho, resultaram da visão do trajecto de vida do meu amigo, no qual
se entrelaçava o meu próprio percurso, o todo ponteado pelos olhos, também
antigos, de alguns dos que ali estavam, os presentes e os ausentes.
![]() |
| O pai do noivo. |
Encabulado, olhei discretamente para a
Ana que, muito empertigada e olhando em frente, tinha os olhos brilhantes de
água e, para além dela, outra, muita outra gente, nos bancos da igreja, que,
como nós, tinham testemunhado o percurso difícil daquele tipo que ali, em cima
do púlpito dourado, celebrava o momento com palavras apetrechadas de asas, com as palavras pacificadas e pacificadoras de quem conseguiu chegar. E, no fim do
discurso do Zé, aconteceu aquilo que eu achava que uma intervenção daquelas
estava mesmo a pedir, embora supusesse que não era habitual em igrejas. Pela nave da igreja, quente, longa,
persistente, ecoou uma salva de palmas que ficou a vibrar no ar muito
depois de um emocionado pai do noivo ter regressado ao seu lugar de figura
secundária.
Classificação:
ESBOÇOS e RETRATOS
13 outubro 2011
PERDIDOS & ACHADOS
A ideia, combinada no dia anterior, no
final do casamento, era tomarmos o pequeno-almoço juntos antes de cada um
debandar para seu lado.
“Ó, pá, qualquer coisa leve, tipo
tosta mista ou assim; não me quero empanturrar com almoçaradas…”, fui avisando
eu, ainda cheio do desvario de comida da véspera e gato-escaldado das boas
mesas que abundam por Viseu.
“Eu quero sair cedo”, alertou outro,
“para não chegarmos de noite…”
Toda a gente achou bem. Na véspera,
quero eu dizer.
Aquele último Domingo de Setembro
amanheceu em azul e dourados e, por volta do meio-dia, encontrámo-nos os seis
nas escadas do hotel, olhando com deleite a luz coada através dos grandiosos
plátanos que sombreiam o parque de estacionamento do Grão Vasco.
Sem rumo, na busca de uma esplanada
aprazível para o tal pequeno-almoço tardio, fomos deambulando pelas ruas mornas
e pacatas de Viseu e quando dei por mim estava abancado à protecção de uma das
muralhas da zona da Sé a comer morcela assada com grelos…
“Vamos só ali espreitar o claustro da
Sé...?”, propôs, no fim do almoço, um de nós que nunca lá entrara.
Duas horas depois, sentados noutra
esplanada do centro da cidade, tomámos café enquanto mirávamos com satisfação
de proprietário os sacos com o pão-de-azeite, as empadas de galinha, o
pão-com-erva-doce, a bôla de sardinha e outras raridades que só se encontram em
Viseu e que com tínhamos tido a dita de topar.
Saí da cidade era já tarde avançada e
a luz do sol declinante, batendo de chofre no para-brisas e encandeando-me os
olhos, mais as sucessivas rotundas em que tropeçava fez com que perdesse a
ligação à A25 e me confundisse por uma estrada secundária, guiando sem
indicação alguma para onde me dirigia.
Entretanto o disco do sol desaparecera
e a paisagem por onde me movia, uma estrada estreita ladeada por pinheiros,
castanheiros e matas de carvalhos, banhava-se na calmaria silenciosa que antecede o crepúsculo. Mais ao longe, acima do nível imediato dos meus olhos,
uma crista de serrania assumia um contorno uniforme, nos tons azul-lilás de um réptil
que se prepara para dormir. A música que, distraidamente, vinha a ouvir, fez-se
notar por ter findado e seguiu-se o silêncio que, a partir do porta-CD aparafusado
na mala do carro, precede a escolha e entrada em funcionamento do CD seguinte. Acolhi
a coincidência sonora com um sorriso ao reconhecer as notas de piano iniciais do
primeiro andamento do Nocturno n.º 1
(opus 9) de Chopin.
Sim, serpenteava ao sabor de uma
estradita cheia de curvas na qual era raro cruzar-me com alguém, onde o entardecer
vestira as árvores de um manto reflexivo e a minha banda sonora não podia ser
mais apropriada, pois também a música propiciava um ambiente em que pouco mais
sobrava do que eu e a natureza lá fora. Uma paisagem que sempre estivera ali,
como se esperasse, imutável e longe do ruído do mundo, que me desse conta dela
e que, só pela presença, me ia demonstrando a cada curva do caminho que “nada
resta para além disto, viajante, tudo o mais, cedo ou tarde, se tornará
longínquo e imponderável”.
Tocava-se agora o larghetto do opus 15 e, à esquerda da berma, vi surgir uma pequena
placa; finalmente iria saber onde estava, pensei. Embora, à escala lógica, a sequência
de coincidências se estivesse a tornar cada vez mais improvável, foi quase sem
surpresa que dei a informação como adquirida: a placa que ficara para trás
indicava um acesso desconhecido a Queirã, a aldeia perdida nas faldas do
Caramulo onde nasceu o meu pai e onde, anos a fio, passei os Setembros da
infância e adolescência.
Continuei a guiar e, sentindo-me bem na minha pele como quem acaba de sair de
um spa com massagem, desaguei em S. Pedro do Sul, localidade em que, após
aquelas duas dezenas de km sem rumo, encontrei a primeira placa que indicava o
meu destino mais imediato. Em Vouzela, já noite cerrada, entrei na IP5 e
misturei-me às sombras rápidas que, guiadas pelo farejar dor faróis, demandavam com urgência
o litoral.
© Fotografia de Pedro Serrano, Viseu, 2011.
Classificação:
RUMINAÇÕES
08 outubro 2011
07 outubro 2011
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